terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O TRAÇO ESCATOLÓGICO DE SOLANO GUALDA

(Por Diego El Khouri)

E vamos mergulhar mais um pouco no universo underground. Dessa vez o entrevistado é Solano Gualda,um rapaz de apenas dezesseis anos de idade mas que tem muito a dizer. Dono de um traço próprio e embebido totalmente na literatura, música e cultura alternativa, seu trabalho é resultado de sua visão crítica em relação a esse sistema massacrante e vários outros temas tendo as problemáticas do homem como motor de criação e luta. Filho de outro guerreiro, o Fabio da Silva Barbosa (entrevistado duas vezes nesse blog), Solano mostra personalidade forte  e com certeza vai dar muito o que falar por aí. Barulho já faz. Vale a pena conferir o trampo desse maluco.






1)    Quais influências marcaram o início de sua produção artística e como começou com fanzines e toda essa "cultura alternativa"?

Bom, desde que minha mente consegue alcançar com clareza, eu estava com papel e caneta rabiscando personagens e histórias. Já faz muito tempo que escrevo, menos, mas ainda assim a maior parte de minha vida! Minhas influências são um misto de tudo do que leio, vejo e escuto. Não tenho nenhuma influência direta, não vejo porque fazer como este ou aquele sujeito. Como ser humano, tenho vida única, com um conjunto de experiências e personalidade própria. Não vejo porque qualquer pessoa haveria de querer se influenciar diretamente. Acho que se simplesmente fizermos, será um material muito mais autêntico e honesto! Bom, então eu estava cá fazendo minhas coisas e acompanhando meu desenvolvimento estava meu pai, Fabio, quem me apresentou este universo. Tendo a minha disposição sua coleção de livros, zines, revistas, discos e filmes acabei pegando gosto por isso! E, enquanto sugava cultura alternativa, acabei expelindo ela!

2) Fale sobre seu fanzine intitulado  "HQ Escatológico" e sua contribuição em outras produções alternativas por aí.
            Bom, o Escatológico é minha primeira tentativa séria de fazer quadrinhos, fazer para alguém além de mim mesmo. Eu escrevia e desenhava e logo achei que seria fácil; grande engano o meu, não que seja difícil, mas é desgastante. Eu tinha largado a ideia de fazer isso há um tempo, mas eu paro e volto, enquanto faço outras coisas; nesse momento estou decidido em pegar um dia e simplesmente fazer um monte de páginas e acabar logo com isso, mas por enquanto eu faço sem prazo. Não estou com pressa, mas desistir de uma mídia tão maravilhosa quanto a dos quadrinhos não é uma opção. Teremos a história principal de mesmo nome, que vai acompanhar a publicação até seu fim, e outras de tamanho menor. Bom, e quanto a minha contribuição para a produção alternativa, estou começando a ver umas paradas relacionadas a grafite - com meu amigo Marcio D Luca - e de vez em quando tem coisa minha no Reboco.


3) O que anda lendo ultimamente?

Estou lendo o Povo Brasileiro, do Darcy, e uma porção de HQs.


4) O que te motiva a criar?

Cara, são tantas coisas ruins que andam acontecendo, que escolher a motivação principal se torna difícil. Eu, de qualquer maneira criaria, mas essas coisas me dão uma direção, aquele algo a mais para o combustível.

5) Fale sobre a "Tarde Multicultural - Sem Fronteiras", e a experiência de ter participado desse projeto de forma bem ativa, inclusive o cartaz do evento foi criação sua.

            Um bom evento, fico feliz de ter contribuído com ele. O cartaz foi uma criação bem livre, tendo como única regra não fazer personagens carecas (risos), pois, é claro, hoje em dia qualquer deslize pode ser motivo de interpretações deturpadas. Tem que ser tudo bem claro, mas nem por isso agressivo, é lógico.


6)  E o blog "Rascunho sem Rumo" como anda?

            Volta e meia posto algumas coisas minha  lá. É um espaço destinado principalmente aos meus desenhos. É engraçado que ele nunca consegue ficar cheio, porque sempre quando vejo meus antigos trabalhos me sinto forçado a apagar seu rastro da internet (risos). As pessoas evoluem e com o tempo seu trabalho também.

7) Participou dos manifestos que marcaram o país na metade de 2013? Qual sua opinião sobre o assunto?

            Alguns. É, a parada foi uma mobilização extraordinária. Quantos realmente acreditavam que naquele ano ia estourar um movimento daquela proporção? Foi um resultado conquistado com muito suor por todos que antes acreditavam e batiam pé por isso, mas enquanto ainda estão acontecendo, a direita continua a acumular poder e sinto que as pessoas não sentem nossa atual vulnerabilidade. Como meu velho diz ´´ não adianta medir força ``, devemos utilizar táticas de inteligência e não violência, pois, mesmo sem pretextos, pessoas são mortas para manter as forças vigentes estáveis. As coisas, creio eu, devem ir por um lado mais calmo, até porque se perder a opinião pública perde-se tudo, pois o público é também o povo e as mudanças são para eles. Os passos seguintes é um assunto a ser pensado muito cuidadosamente.

8) E a poesia?

            Sempre uma opção.



9) O que te incomoda?

 Coceira!

10) O que aguarda por aí?

Bom, estou com planos de montar uma banda. Já tenho algumas letras prontas até, mas nenhuma formação durou mais que um ensaio (risos). Essa juventude está muito acomodada, vem com algo um pouco diferente e já parece ruim. Uma das letras vai sair no Reboco Caído do Fabio. Também pretendo fazer um zine esse ano, alem de talvez uma revista. Eu já estou cheio de ideias e projetos, o que falta mesmo é organizá-las e torná-las palpáveis. E é isso aí, mão na maça. Porque sei que enquanto faço isso, tem gente que nunca pôde, e por elas lutarei!



Um comentário:

  1. A arte está no sangue, é me parece algo genético (mas não é rs) acho que na verdade tem algo a ver com exemplos, parâmetros. Quando se cresce em um universo onde se respira arte e temos a interligação com o que se passa a nosso redor as coisas tendem a fluir, mas é claro quando o talento é inerente. Parabéns ao Solano pela sua arte e sua posição consciente diante de tudo e ao Fábio, grande guerreiro por um filho talentoso e criativo!

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