quarta-feira, 13 de março de 2019

JOSÉ ZINERMAN NOGUEIRA, O HOMEM ZINE



Por: Diego El Khouri

Mais uma entrevista  interessante nas páginas  desse blog: José Zinerman Nogueira, o homem zine. Desde os anos  70 produzindo conteúdo na cena underground.  Pioneiro, por exemplo,  em registrar a cena alternativa nacional através de seus vídeos gravados e lançados em vhs, antes mesmo do advento da internet . Fala aí, mr. Zine!!


*caricatura  feita  por  Diego El Khouri 

1) Como foi o seu primeiro contato com fanzines e de que forma começou  também  a produzir esse tipo de mídia alternativa?


Foi ainda nos idos de 1970 , quando nem conhecia o termo “Fanzine”. Havia nos próprios diretórios do colégio publicações do qual divulgavam informações dos próprios diretórios também chamados de “Jornalzinhos”. Então, tomando como exemplo, resolveria fazer os meus próprios na divulgação de música e quadrinhos do qual chamei de “Little Pig News” uma folha tamanho ofício, com desenhos, colagens e datilografado, trazendo as últimas novidades sobre as Bandas que ouvia na época e programas de TV e de rádio, e lançamentos. Isso foi por volta de 1975.
Em 1978 surgia a primeira publicação em formato ½ ofício, o PIRATA, omicro jornal do rock, trazendo informações sobre a cena musical do momento.
Em 1981 , surgia o “METAMORFOSE” boletim oficial do Raul Rock Clube , Fã Clube do Maluco Beleza Raul Seixas , do qual sou Co-Fundador junto com o amigo pessoal Sylvio Passos.
Em 1991/1992 , outra parceria , o Johnny B. Good
Zine , no formato ½ oficio , e com apenas cinco edições publicadas, de uma loja no centro de SP, do qual era bem eclético indo desde divulgação de Demo-Tapes, Hqs, Poesias, Literatura Beat, Zines e tudo que tivesse um bom astral poderia aparecer nas próprias paginas do fanzine, do qual deixou um grande marco para a época. Nesse mesmo tempo já estava se formando o pré embrião de uma outra publicação que marcou o Underground com suas 45 edições na divulgação nos mesmos moldes que o Johnny B. Good Zine.
No mesmo ano surgia outro avanço tecnológico o “DELIRIO AUDIO ZINE”, ( O PRIMEIRO REGISTRO VIVO DO UNDERGROUND), e uma grande sacada. Feito em fita k-7 e uma espécie de programa radiofônico , com divulgação de Bandas /Demo-Tapes, entrevistas com Fanzineiros , divulgação de lançamentos, e Zines, onde até podia ser ouvido num Walk Man andando de Bike. (A grande onda da época) resultando num total de 21 edições em áudio em fitas k-7 onde era distribuído em shows e gigs por onde eu ia , e para participar era só enviar material.



2) Como surgiu o Vídeo  Zine e como  era produzir  conteúdo em uma época antes da popularização da internet?

Então, em Agosto / 1999 surgia o ARQUIVO GERAL VIDEOZINE, hoje completando 20 anos de existência em prol do Underground, e o primeiro em parceria com a 2 Josés Produções com o amigo e zineiro José Salles. Com cinco volumes lançados e grandes entrevistas com fanzineiros, Poetas, Quadrinhistas, Shows e etc.
Com a saída da 2 José Produções dei continuidade ao projeto com novas parcerias, com o atual Arquivo Geral Videozine Vol 6 disponibilizado na página do Youtube. Para a época foi uma grande sacada e inovação para o Underground, foi um passo a mais, pois agora ao invés de som, tínhamos a imagem agregada e esse. Foi o grande no pioneirismo do Videozine no Underground Brazuca, a princípio feito em Vhs, mas já estou digitalizando todo esse material para o formato Dvd, para que todos possam ter acesso ao mesmo e conhecer um pouco mais da cena naquele momento e sua transição .
E uma grande satisfação pra mim , foi saber através do próprio Henrique Magalhães (Marca de Fantasia), que o próprio Arquivo Geral Videozine estava sendo utilizado como referência e suporte em suas aulas.


3) O fanzine impresso  ainda  resiste na cena underground.  Novas produções  surgem cada vez mais. A que  se deve esse fator do impresso  ainda se manter vivo em tempos virtuais?

Sim , o Fanzine impresso , ainda é o grande charme do Underground , e sempre fui a favor do Fanzine físico , pois possibilita nos uma transitoriedade muito maior que o digital. Você pode levá-lo consigo para onde desejar, enquanto o digital depende de uma série de coisas , como equipamentos, conexão , etc....




4) O que anda produzindo  ultimamente?

Sou um grande entusiasta das publicações independentes em todos os tempos, e as minhas últimas inovações estão aqui :

Momento Zine Flash – o primeiro flyer eletrônico do Underground , trazendo notícias da cena alternativa, dos materiais que recebo através de meu endereço postal. No Facebook ver José Zinerman Nogueira.
Zine Story – Registro das publicações undergrounds , e seu histórico com o apoio da Zine House , o mais completo arquivo das publicações independentes.
ZAP HALLUCINATION ZINE, outra grande inovação trazendo lançamentos e divulgação de Zines e de Bandas. Este no meu próprio whats.


5) O que te motiva a criar?

É uma grande paixão antiga, presente no meu dia a dia. Já incorporei os Fanzines na minha própria Vida. ZINE É VIDA, VIDA É ZINE , esse é o grande barato, você poder divulgar o que quiser, ser Free Totalmente , e isso não tem preço, na sua Liberdade de Expressão, essa é a grande sacada, entende .E os Zines estão aí a todo o vapor , sempre a frente mantendo a chama viva das publicações independentes.


6) Uma frase.

NA MINHA VEIA , NÃO CORREM SANGUE E SIM ZINES !!!!




7) Qual o papel que a cena underground tem hoje no Brasil?

Hoje com o cenário das redes sociais e encontros cada vez mais constantes isso é que fortalece e enriquece a cena na divulgação de novas publicações

8) Você, ao longo de sua jornada artística,  fez capas de zines e já participou  de várias publicações  de formas totalmente  diferentes.  Fale sobre essa sua multiplicidade  de produções  e como se dá essas participações  em zines de outros produtores de cultura alternativa. 


Já fiz de tudo um pouco que se possa imaginar no próprio Undergound indo desde : parcerias, ilustração , contribuições , roteiro para Hqs, participação em curta-metragens, organização de encontros de zines/palestras, poesias de várias vertentes, arte postal, videozines , audiozines, sem falar nos “Pitacos” das publicações sempre visto de um ângulo diferenciado dentro dessa bagagem zinística e é por isso que tenho estampado no próprio nome o ZINERMAN .

9)  Livro  de cabeceira. 

Literatura Beat em geral.



10) Fala o que quiser.  Mande seu recado. 

Agradeço imensamente pelo espaço cedido e oportunidade de poder colocar um pouco dessa experiência que acumulei através dos tempos e espero que possa ser um grande estímulo para os próximos iniciantes na arte impressa dos Fanzines , e um toque a todos: Nunca desista de seus sonhos, as dificuldades existem para todos, mas existem outras alternativas de se produzir com qualidade , é só colocar as idéias em práticas .
!




Contato: Cx.Postal 672 Cep 01031 970 SP SP

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

MIA LINZ E SUA JORNADA PELO PORNÔ

Por: Diego El Khouri

Dessa vez entrevistei mais uma renomada atriz brasileira de filmes pornográficos: a fabulosa Mia Linz. Vencedora de importantes prêmios, tive a honra de entrevistá-la e  conversamos sobre a indústria pornô, preconceito, desafios e curiosidades. Abaixo esse bate papo:





1) Como você chegou até a indústria pornô?


 Eu sempre fui consumidora do mercado adulto além de frequentar swing. Trabalhei como modelo e figuração até que conheci um sujeito que me levou para conhecer um diretor e sua produtora onde gravei uma cena por curiosidade e gostei.


2- Dentro da indústria pornô você procurou sempre diversificar sua atuação. Por exemplo, foi a primeira atriz a protagonizar uma cena de  tripla penetração. De onde você se inspira para quebrar esses tabus?

  Na verdade já gravei umas 3 ou 4 cenas que não se costuma gravar no brasil e isso chama muito atenção dos brasileiros porque nosso mercado ainda vive nos anos 90 e eu sempre fui consumidora e apreciadora do porno americano e europeu e tô sempre me atualizando.




3- Ainda existe preconceito com as atrizes pornôs? Quem sofre mais preconceito, as mulheres ou os homens?


 Esse papo de preconceito é algo "manjado" digo isso porque em toda profissão se sofre preconceito. É claro que existe, porém tem pessoas em profissões diferentes que sofrem muito mais preconceito da sociedade, ainda mais em países latinos.

4-  E na indústria pornô quem é mais valorizado: o homem ou a mulher?

  Acho que essa pergunta todo mundo sabe... a mulher né,  afinal quem vai receber mais assedio e todo tipo de falatório e fazer o papel de submissão é ela.



5- Você ganhou o prêmio de "rainha do anal" no reality show promovido pelas Brasileirinhas além de outras premiações como  o Sexy Hot. O que agrega esses prêmios em sua carreira e quais são suas próximas metas?

   Na verdade o premio é MISS BRASILEIRINHAS por vencer o reality. Essa história de "rainha do anal" foi algo que os próprios assinantes me chamavam assim, mas que ficou marcado quando o próprio Kid Bengala me chamou de "rainha do anal" após ter feito um anal ao vivo comigo. O premio sexy hot só consegui participar de uma categoria porque a produtora que deveria me inscrever não conseguiu me indicar a tempo, mas não me importei porque sei que essa premiação é muito burocrática e depende de 3 jurados técnicos que nem são do mundo pornô. Gostei mais do prêmio garota hard brasil 2018 porque além de dar a oportunidade de TODAS as atrizes do mercado participarem ele foi organizado por pessoas que são do pornô há anos e o publico quem decidia tudo. Minha meta agora, e sempre foi, o mercado europeu e já começo uma turnê em janeiro e logo depois o americano.


6- O orgasmo nas cenas dos filmes é real ou fictício? 

Eu sempre digo: o dia que eu precisar fingir em minhas cenas é sinal que já posso me aposentar e tentar outra carreira.

7- Normalmente as atrizes pornôs também trabalham como acompanhante e fazem shows. Você não costuma fazer nenhum tipo desses trabalhos. Por que essa opção?

  Para o brasileiro isso é normal, mas para o mercado gringo não. Lá fora eles dizem que se uma atriz pode ser acessível facilmente ao seu público como um agenciador vai vendê-la para grandes produtoras por mais? Claro que tem as que fazem porque precisam do dinheiro como muitas amigas atrizes que tenho. Mas aquelas que não fazem e são objeto de desejo do público vão valer muito mais e terão uma imagem de pornstar. Como não vivo do dinheiro do pornô porque já tenho a minha vida feita muito antes disso o meu foco é ser uma verdadeira pornstar dentro e fora do meu país e não uma garota de programa que grava pornô às vezes, então tenho que seguir os conselhos dos profissionais que por sinal estão dando muito certo e já inspira outras meninas é até atrizes veteranas do mercado.


 8- Qual a diferença do mercado gringo com o brasileiro?

Sem dúvidas a organização e a valorização, além de ter um órgão regulamentador (coisa que não existe no Brasil). O cachê é muito maior que qualquer outra produtora brasileira possa pagar. Você tem motorista, alimentação e hospedagem que são coisas comuns lá fora mesmo para um cena rápida e simples. O Brasil ainda precisa investir mais, tanto em produção como em artistas porque alguns     alguns produtores acham que ainda vivem no passado e não se atualizam.

9-  A cena mais difícil de realizar até hoje.


  Acho que ainda não tive, mesmo porque tudo o que faço no pornô já fazia anos antes no meu dia a dia. 



10. Fale o que quiser. Deixe seu recado.

  Me sigam nas minhas redes sociais instagram: @mialinz_ e twitter: @mialinz_oficial para acompanhar meu dia a dia e meus trabalhos e participem no meu blog onde falo da minha vida pessoal e de detalhes do porno que muita gente nem imagina no meu site  www.mialinz.com.

Att. Mia











sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A CRÍTICA ÁCIDA DE REGIS TADEU

Por: Diego El Khouri

Mais uma entrevista nas páginas delirantes desse blog. O mergulho na cultura e na arte que perambula e se fixa na sociedade. Cada humano é um universo. Cada universo uma visão. Dessa vez Regis Tadeu foi o entrevistado desse blog. Regis é um baterista, crítico musical e apresentador de programas de rádio, além de um grande colecionador de discos e cds. Como baterista, Regis tocou nas bandas Muzak, Subúrbio (considerada o embrião da banda Ira!), Ness, Made in Brazil e Jacqueline.



1)  Você   tocou  nas  bandas Muzak, Subúrbio (considerada  o embrião da  banda Ira!), Made in Brazil e Jacqueline. Como  foi essa experiência e o que mudou, de forma mais evidente,   na indústria fonográfica de lá pra cá?

 As experiências foram sensacionais e ajudaram a moldar a personalidade musical multifacetada que carrego até os dias atuais. O Muzak acaba de voltar às atividades, inclusive, com o tio aqui novamente na bateria.
A mudança mais evidente foi o fim do monopólio das gravadoras na comercialização da música. Elas se tornaram meras distribuidoras, algo impensável décadas atrás. Em contrapartida, a maneira como o público passou a ouvir/consumir música piorou muito. Ninguém mais presta atenção a nada. As músicas simplesmente viraram “trilha sonora para alguma coisa que você esteja fazendo”...

2) Embora seja dentista de  formação, estreou,    a convite da revista Cover Guitar, como  jornalista  em 1994. Você costuma defender, em seu trabalho, a liberdade de expressão e a sinceridade e conhecimento por aquilo que se propõe a dizer. Como manter essa  personalidade contundente  em tempos tão reacionários como este em que vivemos ?


Muito fácil: basta não abaixar a cabeça perante o ‘bundamolismo’ reinante’ e sempre oferecer bons argumentos para embasar suas opiniões.

3) Você tem um discurso crítico  bastante ácido perante a música brasileira atual. Afirma que vivemos um emburrecimento cultural em todas as linguagens possíveis da arte. A que se deve esse declínio cultural? Acredita que é um processo consciente de sabotagem do ensino criado pelo poder que controla a política (os financiadores de campanhas, etc.) ? 

O declínio surgiu a partir do momento em que as escolas e faculdades diminuíram o grau de exigência para que os alunos fossem aprovados. Viraram “fabriquinhas de diplomas”, nas quais os alunos são tratados como “clientes/fregueses” e saem para o mercado de trabalho completamente despreparados em todos os sentidos, principalmente em termos de cultura. O termo “sabotagem” é muito forte, mas é inegável que um povo burro é mais facilmente manipulável por parte dos governantes, que é exatamente o momento que vivemos hoje... 



4) E hoje em dia? Alguma coisa  se salva na música atual? Poderia  citar exemplos de bandas e/ou músicos (as)?

Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, a música brasileira vive um momento muito rico, mas que permanece totalmente afastado das rádios convencionais e das TVs. Um povo burro tem preguiça em pesquisar. Logo...
Eu levaria semanas citando ótimos exemplos da música brasileira atual. Prefiro que acompanhem a série “Música brasileira vai mal? Você que pensa...” que retomei agora em meu Canal no YouTube - https://www.youtube.com/RegisTadeuOficial - depois de anos escrevendo a respeito disso no Yahoo.



5) A UNICAMP (Universidade  Estadual de Campinas) incluiu na lista de obra obrigatória,  a  partir  do vestibular de  2020,  o álbum Sobrevivendo no inferno, lançado em 1997, do grupo de  rap Racionais MC's. Atitude que rendeu muitos elogios e também severas críticas.  Qual  sua opinião a respeito?

Uma tremenda bobagem. O disco é ótimo e tem letras muito boas, mas dar a ele a importância de outras obras literárias deixadas de lado é uma afronta à inteligência. Certamente foi um tipo de jogada popularesca cujo motivo foge à minha compreensão...

6) Nos primórdios de sua existência,  qual disco (ou discos)  te levaram a ter  essa paixão  por música?

Alguns compactos dos Beatles – “Penny Lane”, “Strawberry Fields Forever”, entre outros – e o primeiro LP do Black Sabbath. Mudaram a minha vida para melhor...

7) O que acha dessas novas plataformas de música como spotify, deezer, etc.?

São importantes para os dias atuais para quem tem um desejo de conhecimento musical um pouco acima da média, mas se continuarem a “trabalhar no vermelho”, serão substituídas por outros formatos. Eu mesmo não uso nenhuma delas.

8) O que acha do  sertanejo  universitário?

Música medíocres com letras cretinas para um público imbecil.

9) E o funk carioca?

Músicas imbecis com letras pavorosas para um público retardado. 

10) Qual  preocupação  tem ao escrever um texto? Em algum  momento  pensa no  receptor?

Preocupação zero. Escrevo o que me der na telha a respeito de qualquer coisa que julgue pertinente em relação ao que eu penso e acredito.
Jamais penso no receptor. Se eu fizer isso, minha espontaneidade já estará comprometida. 


11) Epitáfio.

“Aqui jaz Regis Tadeu, totalmente contra a vontade”.


sábado, 23 de junho de 2018

MAIS UM PAPO COM O ARTIVISTA FABIO DA SILVA BARBOSA

Por:  Diego El Khouri 

Tive a honra de conhecer esse maluco  em 2009 através do zine O Berro que fazia em parceria com  Winter Bastos e Alexandre Mendes (há  8 anos ele produz o zine Reboco Caído na qual na primeira edição saiu uma entrevista comigo). O grande poeta Glauco Mattoso que me apresentou esse  puta trabalho. Depois em 2010 nos conhecemos pessoalmente quando  ele  morava em Niterói (RJ). Que noites de boêmia e trocas de experiências e trabalhos!  Hoje  Fabio  mora no Rio Grande do Sul.  O entrevistei, para esse blog,  três vezes (essa é a quarta).  Sempre sai coisas  incríveis  desse papo. Os convido a mais essa viagem no universo lúcido e emancipador  de suas palavras:

* Para viajar em   seu universo criativo:





1) Literatura

Nome pomposo. Certas palavras vão sendo utilizadas por grupos que a tornam desagradáveis. Sou contra toda forma de elite, seja financeira ou intelectual. Estas elites são falsas. Privilégios cuidadosamente cultuados para manter as coisas como estão. E, sinceramente, não gosto das coisas como estão. Para você ter uma ideia do que estou falando, dia desses fui convidado para um tal seminário. Falei em uma mesa junto com uns tais poetas. O primeiro que falou cagou tanta vaidade, encaretou tanto a poesia, que ao chegar minha vez me identifiquei como escrevedor e minha produção como qualquer coisa menos literatura. A gente acaba querendo se afastar destas palavras para não ser confundido com esses caras cheios de frufru que enfraquecem a ideia. Produzem algo vazio de significado. O que faço não é a mesma coisa que ele faz, entende? É outro processo. Tô mais pra autista que para artista. Agora, também é aquilo: Isso que pode acabar me fechando em mim, acaba sendo mais abrangente que muita coisa que se vê por aí. Nesse momento, muito artista passa a ter um autismo em grau mais elevado que o meu. Essa linquagem figurada de chamar o ato de se fechar como autismo nem é justa para os portadores da doença, pois, quando vamos analisar o quanto as cabeças que se julgam pensante estão fechadas, vemos que eles estão mais trancados em si do que os enfermos. Tudo gente hipócrita, perdida na umbigolândia. Não podemos confundir o processo de autoconhecimento com o processo egoísta que enfeia tudo. Em tempos como os nossos, onde o fascismo tenta botar a cabeça para fora do bueiro, por exemplo, onde estão os artistas? Onde estão os tais senhores de percepção apurada, por exemplo, se posicionando contra a direita imunda? Muito pelo contrário. Você encontra os caras covardemente não querendo falar de política. Onde estão os intelectuais enquanto imigrantes são postos em gaiolas nos EUA? Onde estão as tais cabeças pensantes enquanto roubam os direitos dos trabalhadores e a corrupção se solidifica a luz do dia? Onde estão os artistas enquanto ditaduras se formam a olhos vistos? Onde estão estas pessoas que se julgam tão importantes? Eu sei onde estou e sei o espaço que minha produção ocupa. Quem acompanha meu trampo também sabe. Tenho mais dois livros prontos e tô na correria para conseguir lançar ainda esse ano. São duas pequenas histórias que refletem muito do nosso mundo. Uma é uma saga urbana, sobre um cara bem ferrado. Outra é sobre um futuro distópico que tem muito a ver com nosso presente. Um dos muitos caminhos que a triste humanidade pode seguir. Eu me aventurando na área da ficção científica. Mas o caminho é sempre difícil para os que não se enquadram, para os que nadam contra a corrente e buscam não fazer parte das panelinhas.


2) Por que escrever?

Cada um com suas motivações e por vezes existem vários motivos em cada um. Eu escrevo por necessidade interna, por gostar dessa ferramenta... Enfim... Por que não escrever?


3)  Zines.

Gosto bastante destes meios de comunicação. Tem um grande cara, o Law Tissot, que certa vez me disse que gostava da idéia de ver os zines como garrafas lançadas ao mar. Também gostei bastante dessa idéia. Produzo o zine Reboco Caído há bastante tempo e já produzi outros pelo caminho. Existem ótimos zines por aí. Acho que é um importante meio de comunicação. Fácil, rápido e barato. É algo tão livre que existe em vários formatos e para diversos fins. Algo que cabe em várias definições.


4) Poesia.

Vide resposta sobre literatura.


5) Cinema.

Gosto bastante. O cinema nacional, para mim, é o melhor do mundo. Embora já faça algum tempo que esteja perdendo muito de sua essência, ainda existem caras na luta pelo verdadeiro cinema brasileiro. E isso não tem nada a ver com o doentio ufanismo patriótico. Quando falo da grande qualidade do nosso cinema, analiso realmente ingredientes muito peculiares dele. O protagonista de um filme nacional, por exemplo, não precisa ter super poderes, vir de outro planeta, ou possuir armas de raio laser. Ele é o porteiro de um prédio, o padeiro, o operário. Poderia citar aqui vários clássicos do nosso cinema. Filmes que mostram as coisas de uma ótica diferenciada, que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo. Ver filmes como o Homem que virou suco, Lúcio Flávio, Pixote, O Rei do Rio, Pra frente Brasil, By By Brasil, Eles não usam Black-tie, Uma Onda no Ar e tantos outros, é um verdadeiro presente. E vir ao mundo é não perder a viagem. Chega a ser difícil buscar exemplos. A gente se sente injusto não cotando vários. Para citar tanta coisa boa precisaria de fazer uma lista enorme. Mas pensa em enorme. Tem muito documentário bom também. O excelente Vladmir Seixas tá com trabalho novo aí na quebrada. Fico triste quando vejo o pessoal jogando dinheiro fora querendo fazer filme estilo norte americano, seguindo o esvaziamento de sentido e significado que representa Hollywood. Não, que não existam bons filmes vindo de outros lugares. Claro que tem. Até dos EUA vem coisa boa. Mas realmente nunca vi nada como o cinema nacional. É algo lindamente combativo e com o que o espectador se identifica de primeira. Aquela coisa que você olha e vê logo que tem a ver, sabe. É algo até difícil explicar, de uma riqueza vastíssima.


6) Drogas.

Nome genérico para rotular grande variedade de substâncias. Existem as lícitas, as ilícitas, as que as pessoas fingem não ser drogas... Existem as ancestrais, que estão há muito tempo com a gente e fazem parte da história da humanidade. Plantas de poder são utilizadas por muitas comunidades antigas e vistas como fontes de conhecimento e saúde há gerações. Algumas destas plantas são utilizadas também em cultos religiosos. Existem também as que enriquecem a indústria farmacêutica, vendidas em drogarias. Outro dia passei por uma destas lojas onde tinha uma grande placa na porta anunciando promoção de remédio. Imagina. Esse meu livro que fala sobre um futuro distópico também discute isso, entre outras coisas. As drogas agem em nosso organismo de acordo com diversos fatores. Existem os fatores culturais, psicológicos, as pré disposições e até mesmo fatores físicos. Alguns conseguem lidar bem com certos tipos de drogas, enquanto outros se tornam verdadeiros escravos zumbis. O maior problema das drogas ilícitas hoje é o modo como são tratadas na maioria dos lugares. A ótica punitivista e preconceituosa é sempre prejudicial ao diálogo e ao conhecimento. O problema das lícitas é seu uso empresarial. Sempre que algo vira fonte de lucro e produção em escala industrial começam os problemas relativos a qualidade e veracidade das informações sobre. A cerveja, por exemplo. Droga largamente consumida e socialmente aceita, mas que hoje conta com o milho transgênico em sua composição em fábricas que produzem em grande escala.


7) Uma frase.

Não pode haver liberdade de reprimir ou tolerância com a intolerância. (FSB – Eu mesmo)


8- Militarização

Atraso

9- Reboco Caído

Vou utilizar uma definição que utilizei para ele no número um e que até hoje cai bem, por mais que tenham passado várias fases durante este tempo de caminhada: zine xerocado, dobrado e grampeado. Um lugar para tudo que vier na cabeça e passar pelo campo dos sentidos. Um ambiente plural, a favor da diversidade.


10- Um poema

Escolher um é sempre difícil, mas vou tentar. Restos Mortais Por Fabio da Silva Barbosa o homem de bronze deitado na calçada encostado na parede no meio da sujeira não desperta interesse ou mera curiosidade dos que passam apressados restos desprezados braços dobrados pernas encolhidas cada parte retorcida em uma tensão pacífica a chuva começa a cair molhando o cadáver que respira ofegante em um bailar de pele e osso







quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A ARTE INTENSA DO ARTISTA VISUAL JOÃO MARQUES

Por: Diego El Khouri 

Direto de Portugal,para as páginas vertiginosas desse blog,o artista João Marques. Residente de Sesimbra, uma vila portuguesa pertencente ao Distrito de Setúbal, esse grande "cientista das cores" me concedeu essa entrevista que posto aqui na íntegra:


1- Você surge como artista plástico em finais de 2009. As bases do seu trabalho são o expressionismo abstrato, o informalismo, além das influências do surrealismo e o neo impressionismo. De que forma se deu esse início nas artes e qual o papel hoje tem em sua vida o fazer artístico?

Olá.
Posso dizer que surjo nos primórdios de artista plástico em finais de 2009. Já antes escrevia alguns poemas e letras de músicas e por vezes criava uma imagem na minha cabeça sobre esse mesmo poema/letra. Foi a partir daqui que dediquei-me mais à exploração na pintura, dentro do que era possível desenhar e pintar, influenciado também pela filosofia que já lia, como Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, ou mais propriamente o Niilismo e o Existencialismo contemporâneo. As influências estilísticas na pintura foram em primeira instância o surrealismo e algum conceptualismo, obras como a “Tempestade Existencial” e o “Espantalho” abordam claramente a influência surrealista e conceptual. Lembro-me também de ter pintado um quadro como um crucifixo num terço afundado num lago (risos) o qual foi vendido pela pessoa achar “é muito bonito para o quarto da minha filha”. Mais tarde optei por experimentar algo mais abstracto e “espontâneo” em que se destacam nomes do expressionismo abstracto americano e do informalismo (tachismo) europeu. Nomes como Jackson Pollock, Emilio Vedova, Georges Mathieu, Pierre Soulages. A espontaneidade do gesto e do “dripping” substituem o desenho e permitem à posteriori criar a forma. O Neo-expressionismo como influência surge para complementar o conceito com a abstracção, devido a este mesmo ter influências do surrealismo, abstracionismo e expressionismo, de uma forma mais livre e errática, mas com significado psico-social emergente. Neste momento tento não pensar demasiado em seguir estilos artísticos pré-estabelecidos, mas sim criar o meu próprio. Sei que me situo entre o expressionismo abstracto e o informalismo com algo mais em que as influências e referências são apenas isso mesmo. O indivíduo como agente interveniente no processo criativo “é mais que a soma das partes.” Posso também acrescentar que o meu interesse e exploração na pintura é autodidacta, uma descoberta.


2-  Como anda a cena artística e cultural de Portugal e mais especificamente em Seimbra, vila portuguesa pertencente ao Distrito de Setúbal?

Em Portugal a arte é vista como um negócio, um investimento, um materialismo em que por vezes possui significado e valor metafísico. Existem vários tipos de artistas, desdes os formados em Belas Artes como alguns artistas autodidactas e outros artistas mais virados para o artesanato e artes decorativas, em que todos competem e podem cooperar pelo mesmo: Ter destaque no mercado, divulgar o seu trabalho e nome e comercializarem a sua obra.
A vila de Sesimbra é uma pequena vila piscatória, sua etnografia é mais direcionada para o artesanato da prática piscatória. Existem sim, exposições de artistas plásticos mas poderão não ter a devida atenção devido ao próprio meio cultural não valorizar de forma correcta. Setúbal por ser capital de distrito já se torna um meio mais urbanizado e eclético com serviços que permitem uma maior divulgação e valorização das artes plásticas.

3- Você diz que "viver é explorar e experimentar". Por quais materiais se utiliza para criar seus trabalhos nas artes visuais?

O suporte que utilizo habitualmente é tela ou papel, tinta acrílica e spray esmalte. Normalmente faço uso da técnica mista, o que me permite criar diversas texturas, efeitos na reacção entre os tipos de tinta, pincéis, trinchas, água… 
Na maior fase de experimentação cheguei a usar cera de velas, cimento, tinta texturada, pedras, papel colados na tela, tinta de óleo…inclusive pegar fogo (risos). 


4- Você disse em um texto que tem como meta formar em psicologia clínica, se especializar em psicopatologia e "navegar na psiquiatria". Em suas obras estão embutidas muito dos conhecimentos de psicologia nos conceitos de Percepção e Projeção. O surrealismo mesmo se embebedou nas conquistas freudianas. De que forma seu trabalho artístico perambula por tais temas?

Sim, sou capaz de ter dito algo sobre a minha formação e planos na área da psicologia. 
Vejo a arte como a expressão artística do sujeito.
A expressão dos seus afectos, conceitos e proporciona a este mesmo uma catarse, a libertação do seu conteúdo afectivo através da projecção (mecanismo de defesa psicanalítico de Freud).

Apesar da psicanálise estar ultrapassada devido às abordagens da psicologia posteriores (como a abordagem cognitivo-comportamental e a neurociência) o mecanismo da projecção é presenciado cientificamente nos sujeitos.
 A percepção é um processo psicológico que permite interpretar o mundo e a realidade externa através dos sentidos que a focam e o cérebro interpreta essas informações internamente. A psicologia da Gestalt (forma em alemão) estudou bastante o processo de Percepção o que permitiu definir que percepcionamos através de leis como: A figura fundo, semelhança, continuidade, pregnância… Para além disto, estudou-se que o ser humano quando nasce, tem a capacidade inata de percepcionar o rosto humano (imaginemos um círculo, dois pontos para os olhos, um traço vertical para o nariz e um traço horizontal para a boca). 

Durante o meu processo criativo existe esta relação entre projecção-percepção. Posso começar directamente com a espontaneidade do gesto e “action painting” e mais tarde definir as manchas de forma mais concreta e “objectiva”. A mancha de tinta poderá dar lugar a objectos, formas, sujeitos, animais… tudo conteúdo projectivo e percepcionado interna e externamente. 


Não me posso definir como discípulo de Freud, até porque estou mais direcionado pela abordagem cognitivo-comportamental e neurociência, mas podemos sim dar importância aos estudos de Freud e Jung no inicio do surrealismo e expressionismo abstracto na escrita automática, os arquétipos e todo o processo criativo de expressão entre e pelos estados da consciência.



5- livros e autores que recomenda.

Qualquer livro que permite ao sujeito expandir, abrir horizontes ao seu conhecimento, reflectir e questionar sobre si próprio e aos outros.
Desenvolvimento intelectual, e neste contexto existe a panóplia de livros de conteúdo psico-bio-social. O meio influencia a natureza do próprio artista, é aqui que se deve dar o insight.
Pessoalmente prefiro, Nietzsche, Sartre, Bruce Lee (filosofia), António Damásio, Albert Camus, Dostoievski, Fernando Pessoa e seus heterónimos, Chuck Palahniuk (Fight Club) entre outros. São excelentes referências que permitem um olhar curioso e profundo sobre a condição humana. 
De resto, livros sobre artistas e biografias são sempre bons para matar alguma curiosidade e talvez influenciar o processo criativo nas artes plásticas.


6- Você expõe seu trabalho em vários países. Como se dá o diálogo com outros artistas?

Em 2012 participei num concurso em Itália, mais propriamente Gaeta (Gaetart 2012) em que consegui ganhar o concurso. O facebook é uma excelente ferramenta para o diálogo entre artistas, instituições, associações, galerias e permite também divulgar as nossas obras através de grupos e páginas. Por sua vez permite também criar e divulgar movimentos artísticos como o caso do movimento Internacional Multicultural NEUTRAL-ISM fundado por Francesco Perilli com um representante por nação (neste momento são mais de 50 nações associadas ao movimento) o que permite criar exposições internacionais pelos elementos do movimento. O diálogo entre artistas dá-se virtualmente e se possível, pessoalmente, na troca de ideias e planeamento. 

7- As artes visuais  interagem e interferem no processo de educação de uma sociedade? Fale sobre.

Na minha opinião (sendo isto somente uma opinião), as artes visuais interagem e interferem no processo de educação de uma sociedade, mas, poderão falhar por carecer de intermediário na explicação da obra de arte em si.
Visualizo mais o uso das artes visuais como um processo de desenvolvimento criativo, permitindo uma melhor dinâmica nas áreas de pensamento, raciocínio e linguagem no sujeito que cria (artista) que por sua vez poderá explicar o seu trabalho ao público (apesar do público observador também poder interpretar a obra (seja esta vídeo, escultura ou pintura de forma pessoal e subjectiva). Sendo uma forma de expressão e narrativa, de conteúdo variado que permite informar e reflectir os sujeitos.



8- E seu trabalho no campo da literatura?

O meu trabalho no campo da literatura passa neste momento por pequenos poemas escritos aleatoriamente sem nenhum objectivo definido. Acho que posso dizer que são um escape ou uma brincadeira projectiva (risos) na criatividade. Normalmente surgem como um devaneio em versos curtos, herméticos, com metáforas em que os temas nas estrofes se misturam de forma a finalizarem um possível tema principal. Sou influenciado pela poesia pós-moderna em que citam-se autores como Fernando Pessoa, Antero de Quental, Mário Sá Carneiro, José Régio… nomes marcantes do jornal/revista portuguesa Orpheu, da segunda década de 1900.
Contudo, tendo em conta que temos sempre o mundo em crise, retornamos sempre à condição humana no cenário social: Guerra, fome, doença, vício, “loucura”,crime, morte… A negatividade.
São estes os temas que me “permitem” criar.

9-  Epitáfio.

" transgressão do informalismo e expressionismo abstracto"

10 - Fale o que quiser.

Cada artista é um indivíduo. Sendo o artista um individuo, deve então explorar ao máximo o seu potencial criativo e libertar-se das normas que o amarram. Já dizia o Einstein que a imaginação não possui limites e que a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho inicial. É necessário experimentar e errar. É este o processo de aprendizagem inato do ser humano. Nascemos providos de um sistema nervoso que é a melhor ferramenta para a nossa sobrevivência e desenvolvimento, e devemos usá-lo, exercitá-lo. A repetição e a estagnação são a morte do artista, são a morte do individuo como principal agente criador. 
Na vida já temos o meio social que transgride a nossa liberdade. É na arte e criatividade que poderemos ser totalmente livres.
O termo pintor, artista plástico são da mesma forma rótulos normativos que poderiam ser transmutados a uma só palavra genérica como: Criativo.
É normal que pessoas que pintam (sejam artistas ou não, sendo isto outro termo académico) possuírem traços de personalidade (como o traço de abertura à experiência) o que as permite explorar diversas formas de expressão como a pintura, música, desenho, escultura, culinária…
Uma pré-formação não é uma má escolha, mas quanto maior e diverso o conhecimento, mais rico e integro é o artista na sua arte. Repito, “A repetição e a estagnação são a morte do artista (…) “
A repetição e a estagnação são a morte do ser humano.
João Pedro Marques
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