quarta-feira, 24 de agosto de 2011

EDUARDO MARINHO E SUAS REFLEXÕES


(Por Diego EL Khouri)


Eduardo Marinho: artista e  ativista que faz da sua arte função. Um dos artistas que estive em contato  no Rio de Janeiro e que tenho o orgulho e a felicidade de conhecer. Diz aí Eduardo:

                     http://observareabsorver.blogspot.com/


Qual a função da arte?


Cada artista é que determina a função da sua arte. A arte passa pelo filtro da personalidade de quem a materializa e adquire um bocado do seu corpo abstrato, ou seja, seus sentimentos, suas idéias, seus desejos, seus objetivos, sua visão de mundo, suas opiniões e tantas coisas essenciais que fazem parte do ser.

Eu escolhi, pra minha arte, a função de sensibilizar, esclarecer, conscientizar, causar reflexões, questionar valores. Na verdade eu escolhiisso pra minha vida, aos dezenove anos. Nem sabia, ainda, que chegaria a viver de arte.”Vou dedicar minha vida a causar reflexão, a fazer pensar...”, foi o que eu disse, há trinta anos.  Quando comecei a fazer arte, mesmo – não artesanato, de que vivi muito tempo –,  já tinha uma certa vivência e já sabia o que dizer, enquanto seguia aprendendo. Esse aprendizado não termina, é o tempo todo, a vida inteira. É preciso estar atento. Enquanto se aprende, se ensina.





 O que tem a dizer daqueles que  te consideram um individuo que se sente  incomodado pelos ricos?


Não sou incomodado pelos ricos, raramente chego perto de um. O que me incomoda é a ostentação grosseira, o excesso, o desperdício. Toda a miséria que vejo se deve à concentração constante de riquezas, terras, rendas, valores, recursos e poder na mão de poucos, o que traz privilégios às minorias, locais, regionais, nacionais e mundiais. Considero a humanidade uma grande família, é assim que sinto. Mesmo o perverso, o bandido, o delinqüente é um irmão meu, perdido em baixas vibrações, cada um com seus motivos. Não posso ostentar riquezas, nem desejá-las (os que vivem em função de grana e privilégios não podem acreditar nisso), diante do quadro social de miséria e ignorância pra tantos, idosos, crianças, homens, mulheres, a quem se nega os direitos mais básicos por um Estado controlado por poucos riquíssimos miseráveis de espírito.



Se interessar pelo marxismo e odiar os marxistas. Explique essa sua afirmação.


Gostei do marxismo, quando o conheci, porque ali encontrei explicações pras situações que via, de diferenças aberrantes, na minha sociedade. Eu estava numa faculdade pública, em Vitória, e comecei a participar dos movimentos estudantis, ainda na ditadura. Eu não disse que odeio os marxistas. Disse que achei os marxistas péssimos, mas só posso me referir aos que conheci e convivi. E achei péssimos, porque sabiam da estrutura social mas não sabiam falar uma língua que se possa entender. Juntando com a arrogância de conhecer a verdade (reparei que o olhar é muito semelhante ao de um crente fanático), de entender tudo, de querer guiar os outros, tornou o convívio bem ruim. Hoje ainda acho que quem se considera revolucionário deveria conviver com a população, com humildade, e aprender não só a sua língua, como seus costumes, sua sabedoria, seus valores, sua criatividade.  



“Você diz que enquanto não houver estrutura partidária no país não haverá democracia”. De que forma se consegue isso em nossos tempos tão sem esperança?


 Não existe tempo sem esperança. Sai por aí e cê vai ver. Observe os sinais. A fúria dos dominantes vem do desespero. A mídia cada vez está mais desmoralizada, está se formando uma mentalidade de oposição às mentiras cotidianas, muitos movimentos onde antes não havia. Gente conscientizando, contestando valores. Ainda raros, ainda exceções, claro, a humanidade ainda é como um garimpo, muito cascalho, terra, lama, pra cada pedrinha preciosa, pra cada pepita de ouro. Mas há uma diferença fundamental entre o garimpo mineral e o garimpo humano. A preciosidade humana contamina, pega, se alastra.

A estrutura partidária, eleitoral, farsesca, “vende” candidatos como produtos, maquiados e orientados por marqueteiros. Claro que tratam o povo como imbecil, e de fato o povo sofre um processo de imbecilização, há gerações. Sabotou-se o ensino público, destruindo-o literalmente, controlou-se o ensino privado, voltando-o para o “mercado” e tornando-o competitivo e racionalista, e a mídia faz o resto do serviço, encontrando a maciez cordata da falta de instrução e de senso crítico. Os políticos, em sua esmagadora maioria, são reles fantoches, manipulados pelos seus financiadores de campanhas, grandes empresas e empresários e banqueiros riquíssimos. Como pode haver democracia se o povo mal sabe ler umas frases? Como, se a população não tem acesso a informações reais? Democracia, aqui, só se for entendida como a “cracia” do demo.



A mídia hoje é o maior inimigo da sociedade?

Não. É apenas funcionária de luxo dos verdadeiros inimigos das populações. Encarregada de imbecilizar, suprir as carências emocionais, distorcer a realidade de modo a que não se possa entender ou enxergar, desestimular a reflexão sobre o mundo, a vida e a sociedade, conduzir a opinião pública, atacar os movimentos de resistência, reivindicação, denúncia ou defesa da população e induzir ao consumo compulsivo, ligando valores sociais, pessoais, emocionais e afetivos à posse, à ostentação e ao consumo.



Acredita na influência divina no seu processo de criação?


Influência divina é um pouco demais, pra mim. Se a gente nem conhece o universo, boiando nessa bola mineral, em torno de uma estrela-anã, em meio a uma galáxia de cem bilhões de estrelas, que é uma entre 200 bilhões de galáxias contadas desde a antigüidade, até onde os telescópios de alta tecnologia podem alcançar – e o infinito que existe fora do alcance – como é que pode conceber um criador, um ente supremo do universo? O ser humano é um animal pretensioso, não tem a humildade de assumir sua própria incapacidade de compreender a totalidade. Daí as explicações religiosas, cada uma chamando pra si o privilégio da “verdade” e excluindo todas as outras da paternidade divina.

Descendo deste pedestal, percebemos o relacionamento com o invisível, constante e permanente, através do corpo abstrato, do ser. Consciente ou inconscientemente, estamos todos em relação com as freqüências que sintonizamos, sofremos influência e influenciamos, por nossa vez. Muitos dos meus trabalhos, sinto que foram feitos com participações outras, que não defino, nem preciso definir.



 “O poder real está acima da política".  Explique isso.


 Há muito tempo os donos do poder real, o econômico, perceberam como controlar o poder aparente, o político. Arrasando com a educação pública – para que o povo seja ignorante – e controlando as comunicações – para que a população seja alienada – a política se subordina à riqueza de poucos, que financiam as campanhas eleitorais com regras publicitárias – “vendem-se”  candidatos como se fossem produtos, com imagens calculadas,  mensagens vazias de conteúdo e caprichadas na forma. O poder real é exercido no escuro do mercado financeiro, nas corporações de banqueiros internacionais, nas reuniões dos magnatas das indústrias de armamentos, laboratórios farmacêuticos e outras mega-empresas transnacionais, decidindo as políticas públicas que serão impostas às marionetes políticas. Ao povo, resta assistir a farsa dos bonequinhos, com poucas condições de perceber os fios que os controlam. As políticas públicas são resolvidas entre poucos particulares, sem participação de nenhum eleito – a não ser, claro, e se houver necessidade, como informante ou consultor. No estado de letargia política a que somos induzidos, não percebemos os crimes lesa-povos diários.



Você rompeu com vários valores que seu meio considerava importante. A que se deve essa coragem?


 Não há coragem. Nem rompimento com os valores. Simplesmente fui, aos poucos, percebendo as mentiras por trás dos valores vigentes e eles foram, gradativamente, desaparecendo dos meus valores pessoais. Eu não tinha nada para substituir esses valores, apenas dúvidas, então ficou um vazio à espera dos resultados de uma procura que se acentuou quando tirei das minhas costas o peso da situação social privilegiada, para procurar, por meus próprios meios, uma razão pra essa existência. Não pude achar tais razões para a coletividade, mas encontrei para a minha existência pessoal, no princípio da solidariedade ao grupo humano, à coletividade.

As pessoas têm um medo implantado de viver sem “garantias”, sem perceber que isso é fonte de angústias e frustrações. Por isso, é comum eu ouvir que “larguei tudo”, que “abri mão de privilégios”, papos sobre coragem, etc. O que houve foi uma enorme necessidade interna, clamando por uma razão além desse vazio de objetivos, pois buscar privilégios, conforto material, garantias e facilidades, além de me parecer pouco pra querer de uma vida tão passageira, me obrigaria a uma vida de merda, sem sentido. Na verdade, quando fiquei sem nada além de uma mochila nas costas, senti um alívio sem comparação, uma leveza e uma liberdade de movimentação e procura que nunca tinha sentido antes.





E o fanzine Pençá com Fabio da Silva Barbosa? Nos fale desse projeto.


O Fabio tem uma enorme vantagem. Ele entrou na faculdade de jornalismo com vivência de base, conhecia o sistema, trabalhava com radiologia em hospital público, conhecia a falcatrua dos serviços chamados “públicos” e tinha a visão de mundo formada pela realidade da maioria. Isso, com seu temperamento e seu caráter, tornou-se uma fortaleza onde as pressões acadêmicas pela mediocrização pessoal não puderam entrar. O jornalismo se tornou, nele, a expressão da liberdade de expressão. Por isso, ele ficou pelas margens, mas com instrumentação acadêmica para exercer o trabalho jornalístico como ele deveria ser, em regra.

O Pençá nasceu, se bem me lembro, num dos porres que tomamos em algum boteco aqui por perto. Depois, como se fosse um plano autônomo, o Pençá começou a andar, meio aos trancos e barrancos, até o terceiro número. No momento está em hibernação, devido a vários acontecimentos da vida, e pretendemos que se torne aperiódico, para termos mais liberdade. Afinal, nem ele, nem eu temos facilidades na vida – é o preço para manter o respeito próprio, sempre na expectativa de que a situação melhore, pelo menos no meu caso. No dele, acho que ele espera que o mundo se acabe em podridão, na sua visão de que “o ser humano é uma merda”. rs



O que tem a dizer sobre o governo querer desarmar novamente a população?


Isso é jogo de bastidores, teatro no pior sentido da palavra. Os interesses que sustentam esse movimento nem me interessam. As forças de segurança cada vez mais atacam a população. São forças de contenção popular, travestidas de segurança pública. Eu me solidarizo com os bons policiais que têm, em seu coração, a crença de garantir a paz e a segurança de todos – eles acabam deixando a corporação, desiludidos, ou pedem pra ficarem nos serviços internos ou, ainda, se tornam amargos e céticos, aguardando o momento da aposentadoria para esquecer tudo. Pobres vidas dilapidadas, pobres sensibilidades destruídas, pobres humanidades enganadas, brutalizadas e corrompidas.



Revendo sua vida, existe algo que não faria de forma alguma?


Claro. Muitas. Não mandaria ninguém atirar, quando me apontasse uma arma. Não teria filhos antes de ter, pelo menos, onde morar. Não chamaria um juiz de corrupto em público, com o dedo na cara dele. Não demoveria nenhum crente da sua crença. E muitas outras coisas, embora só tenha me arrependido, mesmo, dessa última. O cara largou da família – sua mulher permanecia crente e revoltada com ele -, saiu viajando pelo nordeste e foi morto por policiais, em Alagoas, que o viram vendendo seus anéis de prata e pedras preciosas e o roubaram, antes de matá-lo. Amarguei uma culpa sem tamanho.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ENTREVISTANDO ROBISSON SETE


(Por Diego EL Khouri)



Robisson Sete, músico e poeta,  autor do livro  “13 poemas ácidos no bolso da calça”, lançado em 2009. Nessa entrevista fala de poesia, música, arte,  num papo envolvente e direto.

Quando exposto a arte você nunca sai imune ou ileso. Não há maneiras. A arte é um revólver engatilhado de idéias e subversão, duplos sentidos e possibilidades.
Robisson Sete




Dentro do contexto artístico, humano e filosófico, quem é Robisson Sete?

Bom, Diego, sou escritor. Por isso estou aqui falando contigo.

Numa linha um tanto marginal e contundente, sua poesia  conduz o leitor  à uma espécie de êxtase, se apropriando desde o humor, ao nonsense  e até mesmo o inconformismo social numa poética única e visceral. Pra você, poesia é serviço de utilidade pública?

Poesia é o não ato, o insight, a mudança, o retorno, a surpreendência, o Leminski falava um lance assim, de que a poesia é a inutilidade, o gol, o gozo, um jogo. Poesia é prazer né. Coisa que precisa existir simplesmente por ser algo seu. Algo necessário pra vida. É útil e é pública, sim a poesia.

Como anda a cena alternativa em Minas Gerais?

O alternativo hoje já é um termo que tem uma nova conotação, não é mesmo? Alternativo ao que né? Se eu quiser de agora em diante fazer uma festa alternativa latina muito louca todo mês e me divertir, pra quem eu sou alternativo se o que faço pra mim é cotidiano? Entendeu?  E não me importar com  a  mídia maior ou com a cultura de massa imposta, eu posso viver realmente hoje convivendo com uma cultura dita alternativa mas que existe fortemente na cultura do país certo e com outra que possivelmente seria intitulada mainstream, ok? Por isso eu não reconheço mais o que seja alternativo em termos de música de arte. Tudo é possível. Toda arte só precisa estar no lugar certo na hora certa. Hoje vivemos a transmutação do real em digital, é aquela parada de star trek que eles se transportavam, sacou? Só que agora nós estamos ligados em rede sem sair do lugar. E vejo que há em Minas uma produção muito grande quando se fala de teatro, de grupos  regionais de cultura regional, que são congados, as folias. E há também toda essa nova movimentação que tange um novo meio de discutir as relações entre mercado, artista e público. Hoje não existe mais o alternativo, se tu quiser é só por a “bunda na janela”, e pá! Logo logo alguém vem e passa a mão, e depois outro e outro e sua bunda começa a ficar conhecida, pelo menos no quarteirão da sua rua (risos). Então hoje o artista se auto gesta muito melhor e consegue ter mais facilidade em se movimentar. Mais tecnologia a custos melhores e mais baixos.

Músico voraz e poeta visceral. Por quais caminhos mais trilham sua arte?

Escrevo, componho, canto. Minha tríade. No final de tudo, interpreto alguns dos poemas ou músicas. E é isso. Coisa simples. Nesse 2011 vou escrever um ou dois roteiros para curtas com um amigo meu de orelha. Fazer videopoemas meus e de outros autores e organizar um pequeno evento pra tudo isso, além de escrever meu próximo livro. Hoje estou muito produtivo, escrevendo bastante e publicando no Hotel http://www.hotelsete.blogspot.com/, na coluna da Página Cultural http://paginacultural.com.br/author/robisson-sete/ e no Bar do escritor www.bardoescritor.blogspot.com também.

Fale sobre a série “Poemas visuais de banheiro”. Qual era o intuito dessa exposição?

A idéia é levar  a literatura a lugares inusitados, a lugares onde ela possa ser surpreendente ao leitor. O banheiro de nossas casas muitas vezes é o espaço onde a privacidade na casa familiar, se divide, e tem ali um dos lugares onde se lê, sentado no seu trono certo. Já os banheiros públicos são mais escrotos,e  o que se lê lá são os telefones de michês  e putas e poemas búcolicosexais para primas, e enfim. Então fizemos, eu, Alberto Ju e Art Atack, a série de poemas, em adesivos no formato clássico dos azuleijos brancos de banheiros e eles existem agora em vários bares de Uberlândia. Quero levar pra mais lugares esse ano, outras cidades. Há uma escritora de Brasília, Marina Mara, que faz um trabalho que transa também com a literatura nos banheiros. Nos conhecemos há algum tempo. Enfim, os banheiros sempre foram lugares atrativos e secretos para o homem,a privacidade das partes íntimas, as conversas e insultos velados, os banhos, a nudez, o corpo, o infecto, o mal cheiroso, o podre, a doença, o desgosto. O banheiro carrega tudo isso.

A  banda Juanna Barbêra,  que você fazia parte, tinha uma pegada muito influenciada pela psicodelia com um som totalmente experimental misturando vários ritmos  e culturas diversas. Inclusive, por exemplo, utilizando máquina de escrever como instrumento musical. O que levou a banda a acabar e quais seus novos projetos musicais?

Hum... a banda acabou porque é casamento sem sexo (às vezes, risos) de 6 pessoas, sacou? (mais risos) Tem hora que é foda mesmo. E bola pra frente. Hoje ta todo mundo com novos projetos, pessoais e profissionais. Vejo todos da banda por aí, hora ou outra, somos amigos e a banda já era, fica na memória. Talvez a gente mexa no vídeo do show de lançamento, que nós nunca assistimos. Vamos ver. Meus projetos musicais hoje são me aperfeiçoar em tocar caixinha de fósforo pra montar uma banda de roda de samba, pra tocar sentado, beber e comer, com um monte de gente cantando de óculos escuros.


A arte pode salvar?

Sim, pode. Mas depende do que né. Aí isso já vejo muito pessoal, sabe. Arte é comunicação. Acho que hoje em dia a música ainda é algo que prende as pessoas a um mundo lúdico. Porque é matemática. E é inteligência rápida. A música são emoções captadas de formas diferentes por nós, cada um gosta de algo e tudo é bom. E mercadologicamente mesmo, se você falar prum cara que curte aí em Goiania, uma música sertaneja ele adora aquilo  e pronto e é bom pra caralho. Pra ele tem de ser assim, porque se todo mundo adorasse o Scorpions também ia ser um mundo foda.  Mas enfim, a arte salva no sentido da comunicação, quando exposto a arte você nunca sai imune ou ileso. Não há maneiras da experimentação e do olhar, não te tocar e transmutar algo. Arte é um revólver engatilhado de idéias e subversão, duplos sentidos e possibilidades.

Você que é ao mesmo tempo músico e poeta, o que tem a dizer dos críticos que encaram a poesia cantada inferior a escrita?

Penso justamente que não há pra mim essa dicotomia, essa contramão. Mas a pergunta seria, pra que escrever poemas? Hoje em dia pra quem escrever poemas? Pra quem? Seria mais fácil ou melhor escrever jingles ou anúncios de amaciantes n’alguma agência de final plus. Porque o que quero dizer finalmente é que a poesia é uma manifestação da arte em si, e não apenas da expressão lingüística que chamamos poesia transmitida através do veículo poema e feita pelos ditos poetas. Porque muitos poemas de muitos poetas, simplesmente não tem poesia, tem somente forma e conteúdo. Poesia é algo que existe, na comunicação, no outro.

Pensa como Glauco Mattoso, que “Poesia é para um pequeno círculo de apreciadores meio pirados, meio sonhadores, meio iluminados”?

Ah não sei. Poesia é êxtase. Isso todo mundo sente uma hora ou outra por isso ou por aquilo, eu acho. Agora os verdadeiros poetas, esses são pouquíssimos. Isso é verdade. Eu sou escritor, com certeza. Apenas.

Nota-se claramente que sua poesia dialoga com várias escolas literárias. Uma bastante presente é a beat generation. Ainda vivemos sobre o signo da contracultura? Por que?
Bicho (risos) acho que hoje vivemos outro tempo, certo? A contracultura como conhecemos dos anos 60 , ficou por lá, com seus signos e sua importância. Hoje vejo que um novo perfil e apropriação da idéia de contracultura vem a tona. Como os coletivos de arte e produção, onde as pessoas se reúnem em prol de objetivos comuns, e vejo também que a discussão sobre meio ambiente e sustentabilidade, algo que seja mais ecológico em várias áreas da vida, é também um resquício das idéias dos anos 60.

Fale sobre seu primeiro livro, os "13 Poemas ácidos no bolso da calça"e como conseguiu publicá-lo.

Lancei em Junho de 2009, de forma independente, ou alternativa (risos). Escrevo desde moleque e em 2007 montei um blog pensando em publicar meus textos que estavam há anos nas gavetas e coisas novas também. Um tempo depois, escrevi alguns projetos para as leis de incentivo, e fui aprovado pela municipal. Aí veio o processo de elaboração do livro, que foi muito louco mesmo. De aprofundar nos textos e nos poemas e pirar com outras pessoas, lendo e chegando a conclusões. Escolhendo títulos, definindo os trajetos dos capítulos. Há no final das contas muitas pessoas amigas que existem nesse livro, sabe. O livro é dividido em três capítulos, que são o dia, a noite e a madrugada, e existem ótimas ilustrações da artista Bárbara Figueiredo em cada um deles. Participei de algumas festas literárias  e acabo de voltar do Rio (RJ), onde fui selecionado na Bienal da UNE. Pretendo esse ano fazer alguns vídeos sobre um ou dois poemas e encontrar uma editora para o livro. Ele pode ser baixado nesse link:

Diga qualquer coisa agora. Mete bronca!

No dia do meu casamento vou querer que o padre diga algo assim: em nome do amor eu vos declaro rima e  verso; flor e beija flor: pode beijar a  noiva.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

MUGO - A PORRADA DO ROCK


(Por Diego EL Khouri)





Há inúmeros elementos que nos remetem a perceber se uma banda continuará tocando ou não. Às vezes é a tendência da época, o mercado, outras vezes as contradições, o meio onde vive, e em outros casos o talento é a chave primordial para a sustentação de sua arte. Mugo é uma banda que permanece pelo talento explosivo e pela característica de sempre se renovar sem perder a pauleira de sempre.  Augusto Scartezini, o guitarrista da banda Mugo, esse goiano mergulhado totalmente no rock, me concedeu uma entrevista. Aí está:

http://www.myspace.com/mugobr


Fazer música e sobreviver dela é complicado. Agora fazer rock n’roll numa cidade conhecida apenas por exportar sertanejo, é mais complicado ainda. Como mesmo assim  lutar por algo tão destoado de seu meio?



 Na verdade, apesar de Goiânia ainda ser a capital sertaneja do Brasil, temos aqui uma cena de rock muito forte e que exporta pro Brasil inteiro um rock muito potente e muito bem feito, que aos poucos vem mudando a cara da nossa cidade, através de suas bandas e produtores que tem lutado bastante para mudar esse rotulo de nossa cidade! 


O nome Mugo é equivalente a Ogum, escrito de trás para frente. Qual a relação que a banda tem com esse orixá e o candomblé?

Ogum é o orixá dos metais, que fabrica suas próprias armas para a guerra e também para outros fins, é conhecido como o orixá guerreiro, assim como todos nós somos! Apesar de não sermos ligados ao culto, nos identificamos com essa característica do orixá, e por isso o nome da banda!

Há críticos que afirmam que uma banda alternativa quando vai atingindo o sucesso vai perdendo o veneno e ficando cada vez mais pop. O que tem a dizer sobre isso?

 Eu acho que isso é uma coisa natural, afinal, se uma banda vai atingindo o sucesso, ele está se tornando popular (pop), mas isso não quer dizer que seje ruim, uma diferença é a banda ficar mais popular e outra é ficar popular e mudar seu som, o que acontece com muitas bandas, que mudam seu som pra ficar realmente mais comercial, mas bandas de verdade, ficam, de certa maneira, pop, sem perder seu veneno!

Hoje quais são os principais objetivos da banda?

 Hoje temos como foco lançar nosso segundo disco, que vai começar a ser gravado no dia 15 de maio de 2011 no estúdio Da Tribo em São Paulo pelo produtor Ciero, que ultimamente gravou Claustrofobia, Krisiun entre outras bandas, depois do lançamento vamos divulgar o máximo possível, não só no Brasil, mas também na gringa, através de tours e utilizando sempre a internet para divulgar todo o nosso trabalho! 

Como vê a cena musical hoje?

 Pra quem realmente gosta de música, busca por bandas que estão na ativa fazendo novos trabalhos, que lançam seus trabalhos por meios alternativos, eu creio que a cena está muito boa, com bandas que estão cada vez mais lançando trabalhos muito bons, como por exemplo no Brasil: Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Claustrofobia, entre várias outras, além das bandas gringas que estão na ativa como Parkway Drive, The Mars Volta, Deftones, quem procura acha coisa MUITO boa sendo feita atualmente na música, para todos os gostos, agora, pra quem escuta as rádios e assiste a MTV, a coisa ta feia, e muito!

Cantar em inglês tem como objetivo alcançar mais pessoas ou acreditam que o rock n’roll sem o sotaque gringo perde sua essência?

 Na verdade a gente compõe nossas músicas em inglês por uma questão de sonoridade e afinidade com o som, afinal, desde sempre escutamos nossas bandas favoritas cantando em inglês, então, pra nós é bem mais “normal” cantar em inglês do que em português. Além disso também, o inglês é a língua mais falada em todo o mundo, então é mais fácil as pessoas entenderem nossas letras assim, do que se cantarmos em português, é importante para nós que  muitas pessoas escutem as músicas e entendam nossa mensagem em qualquer lugar do mundo!

Quais as referências musicais da banda?

 Nós somos 4 integrantes que viemos de 4 escolas diferentes, porém, achamos nessas 4 escolas os pontos em comum que formaram o MUGO. Nossas influências variam entre Pantera, Lamb Of God, Parkway Drive, Belvedere, Madball, Job For a Cowboy, Suicide Silence, Deftones, August Burns Red, entre várias outras bandas que fazem nossa cabeça e que nos dão inspiração para fazermos o nosso som!

Mugo ao vivo e no cd tem a mesma carga explosiva e impactante. Como manter essa energia toda?

Paixão pelo que fazemos, é tudo! Apesar dos berros e o peso da música, a gente faz tudo isso por que ama, e damos muito valor, então, procuramos sempre transformar tudo isso que sentimos pelo nosso trabalho em energia para sempre estar impactando quem está nos ouvindo em casa ou no show, porque ver as pessoas assistindo ao nosso show, e delirando junto com a gente não tem preço, e isso move a gente a sempre dar o sangue nos palcos e fazer o nosso melhor ali para aquelas pessoas, sejam elas dez ou dez mil!

Pra terminar, qual a função da arte?

A função da arte é expressar alguma coisa através da música, pintura, teatro, seja como for! A arte, seja ela da forma como for, é a melhor forma de expressão para qualquer um que queira mostrar aquilo tudo que se passa na sua cabeça, por isso, o que é arte pra um, pode não ser arte para o outro, a verdade, é que apenas o próprio artista realmente entende a sua arte, independentemente disso, a arte, seja ela qual for, alegra e lava a alma das pessoas que a admiram!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

WINTER BASTOS


                            Obs: na foto Winter Bastos é o da direita



(Por Diego EL Khouri)

Winter Bastos é um dos mais atuantes escritores desse país. Já acompanhava seu trabalho desde as primeiras edições do fanzine O Berro quando recebia em casa via correio. Zine que conheci através do grande sonetista Glauco Mattoso. Hoje ainda mantendo na ativa as publicações do Berro ele vem aprimorando sua arte e aprofundando cada vez mais nos temas de revolução e luta social que é sua marca registrada. Conheci essa alma brilhante em dezembro de 2010 em Niterói numa tarde quente carioca. Agora é a vez do Winter falar:



O inconformismo é uma das bases principais de sua literatura. De que forma ela se agrega em sua arte?



Na verdade não costumo pôr, em meus contos, objetivos políticos ou ideológicos definidos. Panfletos ou ensaios são bem mais eficientes para isso. Se algum inconformismo acaba transparecendo em minha literatura, isso se dá de maneira involuntária.




Arte necessariamente tem que ser útil?


 Não. Bem, na verdade vai depender do que a pessoa entende pela palavra útil. Arte tem que ser artística, tanto quanto um triângulo tem que ter três lados. Ser artístico é provocar um deleite estético (uma “perturbação” em nossa cognição habitual) que em nada se assemelha a um passatempo ou divertimento acrítico. Essa “perturbação” é bastante proveitosa para cada um de nós, no sentido de permitir auto questionamentos e visões novas sobre o mundo e a vida. A função da arte reside nisso. Ela não é utilitária para a atual sociedade produtivista... felizmente.

  

Como é produzir literatura em um país de poucos leitores, ainda mais uma literatura fora da grande imprensa?


É difícil. Cursei oficinas literárias com escritores como Esdras do Nascimento, Sérgio Sant’Anna e Jair Ferreira dos Santos. Depois fiz parte de um grupo literário em que analisávamos mutuamente nossos textos literários, dando ideias uns aos outros. Arranjar tempo para ler e escrever também não é fácil. Foram muitos esforços e sacrifícios para evoluir um pouco na arte da escrita e mesmo assim poucos reconhecem. Mas a luta vale a pena. Aliás, recentemente tive a boa surpresa de saber que recebi menção honrosa no IX Concurso Municipal de Conto Prêmio Prefeitura de Niterói.   



Quais as principais mudanças que ocorreram nas novas publicações do fanzine O Berro após a saída de Alexandre Mendes e Fabio da Silva Barbosa, criadores do zine ao seu lado?


Fabio e Alexandre (meus grandes amigos há quase 20 anos) saíram do fanzine que criamos juntos, para se dedicarem melhor a seus projetos individuais. Tive, então, que mudar a periodicidade de “O Berro” de mensal para bimestral. Depois ele se tornou oficialmente aperiódico, mas, na prática, tem saído a cada dois meses aproximadamente. No mais, a publicação continua bastante crítica, com textos políticos, algumas poesias, além de resenhas de livros e filmes.  



Uma sociedade baseada no anarquismo é possível?


Uma sociedade baseada no Anarquismo é possível e necessária. A sociedade européia viveu mais de mil anos antes da formação dos Estados e nem por isso se autodestruiu. Na Ásia, África e América houve diversos exemplos de comunidades sem Estado. Comunas especificamente anarquistas (baseadas no pensamento de Piotr Kropotkin, M. Bakunin, Errico Malatesta...) também existiram e não entraram em colapso por falhas em sua estrutura. O problema é que o patronato e os governos combatem o Anarquismo, e o povo ainda não reuniu força e organização suficientes para derrotar tais opressores.     


Como anda as publicações alternativas no país?


Não sei ao certo. Não tenho tido tempo suficiente para me inteirar do assunto. Torço para que estejam bem, já que as publicações convencionais são uma porcaria.



O Brasil vive uma democracia?


 Não. Um país com serviço militar obrigatório, voto obrigatório e prisão de dependentes de drogas não pode ser considerado democrático nem mesmo pelos parâmetros burgueses.

Nos dê uma visão geral de seu blog Expressão Liberta.

 O blog Expressão Liberta nasceu em novembro de 2009 para apresentar o que não costuma ser mostrado pelos meios de comunicação convencionais. Nele podem ser encontrados poemas, críticas literárias, notícias, letras de música, divulgação de eventos, resenhas de filmes etc. O endereço é www.expressaoliberta.blogspot.com.   


Como é seu contato com outros fanzineiros do país? Há diferenças de estilo, visão e produção artística alternativa em cada estado do país?


 Infelizmente meu contato com outros fanzineiros é pequeno. Às vezes mando cartas e não recebo resposta. Outras vezes o zineiro só mantém endereço virtual, o que impede que eu envie impressos. 


Como anda a produção cultural no Rio de Janeiro?


 Há coisas interessantes, porém muita carência também. Por um lado temos boas publicações como o “Anormal Zine”, o jornal “Transversus” e o fanzine “Pençá”, além de iniciativas ligadas à música como o Movimento Pop Goiaba em Niterói. Por outro lado, salas de cinema são fechadas uma a uma, restando apenas algumas poucas em shoppings, com filas quilométricas, ingressos caríssimos e filmes globais ou hollywoodianos idiotizantes. A maior parte dos teatros encena comédias vazias transplantadas da TV ou apresenta stand up comedy (show de humor que não tem nada de dramaturgia).  É difícil encontrar peças de autores relevantes.



Quais os movimentos que participa e a função de cada um?


 Comecei a participar, ano passado, de algumas reuniões de um grupo chamado OP, que tem um blog bastante explicativo acerca de sua função - http://organizacaopopular.wordpress.com/.  No entanto tenho atuado pouco no momento. Também sou colaborador eventual da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (vide www.farj.org).



A submissão é traço dessa nossa sociedade. Acredita na revolução da arte?


A arte é revolucionária, no sentido amplo, à medida que nos faz repensar valores e mostrar novas visões da alma humana e do universo como um  todo. Logo acredito na revolução da arte. Mas entendo que, além desta, é necessário também uma revolução social que destrone os políticos, exproprie a classe burguesa e construa uma sociedade livre e igualitária, sem governantes e governados, proprietários e despossuídos, senhores e escravos. Para a construção desse processo, outros setores da sociedade são até mais importantes que os artistas.



Pra terminar, o que tem a dizer pra essa juventude?


Acreditem em vocês mesmos.