quarta-feira, 9 de março de 2016

LEANDRO ERVILHA

Por: Diego EL Khouri

Conheci esse escritor/artista plástico  nas minhas andanças pelo Rio de Janeiro. isso foi 2013 e mais especificamente na Lapa. Estava expondo suas pinturas em um "sarau de poesia erótica" promovido pelo poeta Vinni Corrêa. Além de livros e pinturas ele organiza diversos eventos na cidade carioca. É um camarada que vale a pena conhecer mais.


1)            Como foi seu início na literatura e artes plásticas?

O meu início nas artes plásticas se deu pela minha tentativa de me descobrir como artista, não só através do meu processo criativo na tentativa de descobrir traços e técnicas que eu pudesse me identificar, mas do incessante estudo das artes, principalmente no seu aspecto histórico. Quanto a literatura eu senti que o momento em que eu decidi publicar o livro, o país passava por um momento em que estava pedindo por uma literatura que expressasse todas as angústias, dúvidas e aspectos comportamentais da sociedade contemporânea.

2)            Como é o seu processo de criação?

 Tanto nas artes plásticas quanto na literatura, fico com as ideias fluindo na minha cabeça por semanas, até o momento que eu decido colocar todas as ideias em prática.


3)        Você promove saraus e eventos culturais com uma certa frequência. Fale sobre.
 Uma vez por mês eu organizo o Sarau Poético da Maju, que ocorre na livraria Maju do Parque Shopping Sulacap, e é transmitido ao vivo pelo meu site www.leandroervilha.com.br. O microfone é aberto para todas expressões artísticas, dando oportunidade para escritores, músicos, atores, etc. Eu me preocupo com todos os detalhes, desde o planejamento até o momento em que as pessoas estarão participando, assim posso dar ao público um evento de qualidade e principalmente aos artistas a possibilidade de realizarem suas apresentações com satisfação. Nos saraus há a possibilidade de escritores fazerem lançamentos, fazendo com que outras pessoas que não estão em sua lista de convidados, de conhecerem e adquirirem os seus livros. Ocasionalmente também realizo junto com o sarau, uma exposição coletiva que criei, chamada Rio Artes Visuais, em que artistas profissionais e amadores podem expor seus trabalhos. No mês de dezembro de 2015, tive a grande experiência de organizar o sarau Poesia & Arte junto com o escritor Márcio Muniz. Nesse evento além do sarau houveram oficinas, exposição de artes plásticas, lançamentos, venda de artesanato e a presença do convidado especial Mano Melo, que recebeu algumas homenagens que tivemos o prazer de prestá-lo.



4)        Quais livros te marcaram profundamente?
Metamorfose de Franz Kafka, A hora de estrela de Clarisse Lispector, Vidas secas de Graciliano Ramos, Mr. Slang e o Brasil de Monteiro Lobato, além de toda obra poética de Carlos Drummond de Andrade.


5)        Ainda acredita na literatura?

Acredito e acho que é uma ferramenta para criar cidadãos mais conscientes e reflexivos.




6)       Fale sobre sua arte visual.

Procuro não me prender apenas a um tipo de trabalho, para que eu possa estar sempre me superando como artista. Com a criação da exposição Preto no Branco, pude dar uma personalidade aos traços de silhuetas de mulheres, de forma com que o público pudesse identificar facilmente como um trabalho produzido por mim. Atualmente, tenho procurado desenhar aves e outras espécies de animais, além de ter criado um autorretrato.

7)        Sua poesia.

A minha poesia está diretamente ligada a vida na sociedade contemporânea, e procura falar a respeito de problemas como: depressão, consumismo, poluição, crime, etc., e assim saiu o livro “Caos Urbano”.
Atualmente estou buscando um assunto totalmente diferente do que costumo escrever, e logo sairá o livro “Nos Confins do Universo”, que possui toda uma carga científica e é um amálgama da realidade e da ficção. Mas mesmo neste livro, tento fazer alusão aos problemas correntes de nosso planeta.


8)        Uma grande imprudência.
Não veio nada em mente.



9)        Uma poesia pra finalizar.

DEPRESSÃO

Dirijo sem direção.
Indo pelo caminho
da obscura depressão.
Meus olhos correm
para todos os lados.
Minhas veias pulsam.
Meu café esfriou.
A luz se apagou.
Não há dança,
nem cor,
vontade ou rancor.
Só pensamentos desconexos.



10)      Fale o que quiser.



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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

XANDU DO RATOS

(Por Diego El Khouri)

Conhecido como Xandu do Ratos (por frequentar o Rato Di Versos, um sarau bastante conhecido na Lapa no Rio de Janeiro), esse poeta não deixa pedra sobre pedra. Agitador cultural, performer, outsider, armado de versos e sacadas inteligentes, ele não se limita aos saraus ou eventos culturais no RJ.  Sua poesia perambula  entre bares, favelas, centros culturais, aonde quer que vá, levando a sua dinamite verbal ao contato imediato com o maior número de pessoas possível. Tive o prazer de conhecê-lo na segunda vez que morei no Rio de Janeiro, por volta de 2013, e aqui posto uma entrevista que ele me concedeu. A primeira que faço em 2016. "Vamu" que "vamu", cambada!!!

Perfil Facebook:
https://www.facebook.com/poetaxandu
- e-mail: poetaxandu@gmail.com

!!__RATOS DI VERSOS__!!
- FaceBook: https://www.facebook.com/ratos.versos
- Blog: http://ratosdiversos.blogspot.com.br/

- e-mail: ratosdiversos@gmail.com


1) O que te despertou para a poesia e quais eram suas influências no início?

Sim, existe isso de trajetória, e ao mesmo tempo não existe: porque a poesia vem de algum lugar secreto. Acho que a minha veio dos infartos diários da criança que um dia eu fui; acho que veio de um bailado centenário, essa dança que eu pego e espalho por precisar enviar certos recados. É nesse caldo que adiciono o resto: ver outros poetas, ler livros, viver paisagens, e dormir sonhos e pesadelos para no dia seguinte ter o que vomitar como poesia. 

Mas sendo justo com a história: uma bagagem inicial foi construída nos círculos universitários e na boemia da Zona Sul fim dos 80 e início dos anos 90. São poetas que ainda hoje se agregam entorno do CEP 20.000, Fundição, Circo Voador etc.. Convivi intensamente com o grupo Boato, que tinha raiz na Faculdade Hélio Alonso-FACHA, fazia música punk e pop, com a mesma garra de botar poesia nos saraus. Dentre estes: Justo D'Ávila e André Pessôa. No Baixo Gávea, na praia de Ipanema, ou em qualquer lugar que fossem, são também nomes fortes: Chacal, Maurição Antoun, Guilherme Levi, Guilherme Guimarães (do grupo Acorda Bamba), o Michel Melamede, o Alex do estúdio Totem, através de quem conheci o Chico Sciense - uma pérola nos ouvidos. Os poetas da ECO-UFRJ, posso lembrar do Paulinho Marrufo, Esquilo, Moisés Black, Moisés White, o Joe Romano, que era tratamento aberto do Pinel. Com esses todos: foi um ponta-pé. 

As trilhas sonoras aconteceram forte em mim. O Circo Voador era um bálsamo, com blues, punk, rock, jazz: as noites mágicas do Hermeto Pascoal. E nos sambas de Santa Teresa também, muito pelo Sobrenatural, que era um bar precário, turbinado pela roda de músicos da Beth Carvalho, e onde as madrugadas... Muitos improvisos na Lapa, com batuques e Hip Hop, no famoso tempo "quando não tinha nada". Ah! Essas madrugadas cheiram a poesia!




2) A sua poesia  dialoga muito com o rap. Até que ponto esse estilo influência o seu trabalho e qual o som tem ouvido.

Não. Discordo. Não gosto de RAP, não faço isso. Se falar normalmente é ter influência do RAP... acho forçado. Não uso a métrica, a batida, não faço RAP. Tenho dois RAP's que fiz só pra caso de protestos políticos, e como sou poeta... RAP me cansa. Próxima pergunta. 


3) Você é um assíduo frequentador dos saraus do Rio de Janeiro, como por exemplo o Pelada Poética, encontro de poesia organizado pelo ator Eduardo Tornaghi na praia do leme e principalmente o Ratos Di Versos, sarau que ocorre todas as quintas feiras na Lapa. Qual a importância desses eventos na sua produção artística e como anda a  vida cultural no Rio de Janeiro?

Nunca me interessei muito por saraus, mas sempre gostei de gangues: de rua, de skate, de bebedeiras, e de poesia. Então comecei uma poesia junto dos colegas de universidade, na UERJ, muito pelo Alê Gabeira que promoveu a Rio Jam Session, na casa do teatro Tá Na Rua, na Lapa. Em 2008 ou 2009 colei com o Ratos Di Versos, que sempre foi gangue também, e por sorte habita os botecos e praças da Lapa. 

Como você disse... Na Pelada Poética no Leme, ou no Corujão da Poesia... São lugares que fui e que vou, porque são lugares menos burocráticos que o CEP20MiL, por exemplo. Ganhei essa garra, primeiro, por ter que enfrentar o esvaziamento do Ratos Di Versos, que foi o fim de um ciclo de pessoas ratonas em nossa poesia - o Ratos sempre teve esse entra-e-sai. Depois, avancei por mil saraus, e isso foi mais ou menos quando nos conhecemos. Explico. 

Já vinha há dez anos fazendo militância pela dança Breaking, que é o bailado do Hip Hop - pela base, nas favelas e periferias, pelas ideias de dar reforço e visibilidade a uma das artes mais esquecidas quando se fala em Hip Hop. Isso se tornou o blog ZineZeroZero, onde conto essas histórias de gangues de breaking. Então cheguei a um ponto em que escrever um livro sobre isso se tornou necessário. Mas no blog mesmo, nunca escrevi pra gente de fora, uso linguagem direta e gírias internas... Sendo que, ao tornar isso um livro, passei a considerar que eu viraria um x-9 de algo que ocorre no underground. Fiz um esforço de buscar esses dançarinos populares no momento em que são contratados pelas grandes Cias de dança, quando recebem seu cacau firme no fim do mês. É disso que estou falando: Arte Contemporânea. Passei a estudar e traduzir isso para o mais simples da linguagem em respeito ao público. Ainda não terminei, não teremos livro ainda esse ano. 

Mas esse estudo foi o que tentei levar para o meio da poesia, acreditei [como um bobo] num estágio de coesão e organização dos diferentes grupos. Não tinha facebook, e quando entrava era através do Ratos, sempre com uma resposta "quente" dos poetas. Daí, no início de 2014 tentei levar uma arte contemporânea através do Ratos, visando um coletivo de poetas - o que ocorreu? nada. Não teve presença. Desiludi. Foi então que vi a necessidade de turbinar, militar, esquentar esses grupos de poesia. Mas não fiz isso direito, nunca achei que marmanjo bem criado e letrado precisasse de que um outro lhes desse a mão e taí: basta sacudir o cachê minguado da FLIP e todo um trabalho de auto valorização se esfacela. Também não bato mais nisso - deixa rolar. 

Mas crescemos, vários saraus, e? O que vimos foi o efeito em adultos, que se sentiram valorizados por poderem se ver uns aos outros, fazendo crer que a propaganda basta para formar poetas. Faço propaganda sim, jogo fotos no FB certo da inveja que lhes corrói as almas. Olham o Ratos Di Versos como se fosse um grupo organizado, e quando vão lá ver... já não querem voltar: porque é sujo, é guerreiro, é sem FLIP, é sem glamour. Se é essa a importância dos saraus? Alguns veem trabalho ali, às vezes grana, a maioria quer o afago do público, e o Ratos não quer porra nenhuma: poesia num serve pra nada. Nossos encontros são uma vitrine olhos-nos-olhos, e só por isso vemos poetas bons colando ali, evoluindo com a gente, fazendo e falando poemas melhores. 

O que traz evolução na poesia é escrever, mas se um sarau lhe motivar... Não será diferente da poesia que eu faço ao ver beleza em fritar dois ovos pra comer com miojo. 




4) Um livro que te impressionou muito.

O livro mais importante e poético que já li foi Geografia da Fome, do geógrafo Josué de Castro. Um grande erudito, que usou uma linguagem doce pra falar do áspero, criou as bases para iniciar uma noção de ecologia, não só da "vida natural" mas humana, global, e... Sua posição política sempre esteve entre um embate pesado, sua crença de que o avanço tecnológico não receberá o nome de cultura enquanto for pautado no genocídio. Aprendi com ele: cultura só existe se for pela vida. A 1ª vez que ouvi desse autor foi na música do Chico Science - "Ô, Josué! Nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem mais urubu ameaça!" 



5) Lembro que  por algumas vezes a polícia tentou impedir que ocorresse o sarau Ratos Di Versos. Por que cultura incomoda tanto?

Cara, no Ratos Di Versos fazemos poesia na rua. Nem sempre foi assim: estivemos em muitos bares, dos quais fomos devidamente expulsos, depois de botarem repressão em nossas palavras, versos, atitudes. Um palavrão. Uma juke-box. Uma data cancelada. Um ataque pessoal. Então a repressão já está aí, no lugar aonde você estiver. 

Fazer poesia na Lapa é um aprendizado constante: fica no Centro, todas as tribos culturais firmam pé por ali, muitos chegam de longe, é como dizem: "onde moro não tem nada". Então é na Lapa o refresco da periferia, passar uma noite ali na mais pura malandragem, garantia de diversão a noite toda - de manhã voltar pra casa feliz e seguro. É também um "salve" no bolso do mendigo, do cracudo, da prostituta, do travesti, e de qualquer elemento da cidade: de políticos a ladrões, todos vão ali. Por diversão ou por grana.

Algumas vezes temos de lidar com a polícia, suas ameaças brutais, e chegamos às vias de fato com o chamado Lapa Presente [de Grego] - um péssimo serviço a cultura na Lapa. Porque o cerco é geral, não só aos meliantes. Então não querem reuniões "esquisitas", não querem poesias nas ruas mais movimentadas da noite do Rio - já nos revistaram os fanzines, esgoelaram poetas, spray de pimenta nos olhos, bombas nos pés, puxaram o revólver. Sofremos a repressão direta, a última delas foi na virada 2014/15, desde então pensamos num modo de lidar com essa praga. Desde o histórico de praças e bares, desde a última expulsão do Ratos Di Versos, logo em 2015 mesmo, conquistamos uma pracinha para chamar de nossa: tem balancinho, trepa-trepa, gangorra, tem poesia - atualmente somos Rat-Felizes! :D 




6) O que te inspira a criar?

Assistir o mundo, lido e vivido, futucá-lo como quem está atrás de namorada, estrebuchar com as injustiças, ou observar o belo, seja simples ou inconveniente, o inesperado - de qualquer jeito, é a poesia que vem pra mim. Mais fácil se doer, mais difícil se já existe uma beleza dada. A maior parte do que escrevo, sinceramente, é um lixo. Mas calmaê: o "brilho" é mesmo porra-lôca, só aparece de vez em nunca, e isso não é diferente do que ocorre em grandes poetas e escritores. Acho que dificulto as coisas. Sei lá. Tenho prática de escrita. Não acho que escrevo poesia boa, só por escrever bonito... Nem todo mundo curte bossa-nova. 


7) Quando você escreve em algum momento pensa no receptor?

Sim. Tento dividir entre poemas escrito para populares, e outros, escritos livremente, e só por isso já possuem uma carga elevada de cultura. Sou formado em ciências sociais pela UERJ, se quiser falo grego pra desafiar outros letrados. Mas em geral busco ser simples, fácil, direto. 



8) Há um debate frequente sobre a questão da descriminalização, regulamentação e legalização da maconha. Qual sua opinião sobre?

Tudo o que vier para descriminalizar é um bem à sociedade, ainda mais nesse Brasil varonil: favela num pode, camelô num pode, e quanto mais pobre e mais preto a coisa tende a proibição. Ao descriminalizar a maconha atacamos um excesso que ocorre no Brasil: a prisão arbitrária dos pobres. É de conhecimento público o índice de 60% da lotação das cadeias vir justamente de perigos menores, como portar umas buchas de maconha. Explico melhor: se você é pobre e mora em favela ou bairro degradado... você está em "área suspeita" de ser "alcova da malavita", se você é preto ou pardo e está desempregado então você é "típico", e se for pego com uma bobagem que é a maconha: fecha-se o cerco com a tal "formação de quadrilha". Não terá como se defender da súmula 70, na qual a voz do policial tem superioridade a do cidadão comum, e funciona bem quando vemos os tais "60%" moscando na gaiola: pobre, preto, favelado, gente de nossas grandes cidades. No campo talvez seja pior, talvez a bala resolva o que o martelo não cuida. Isso deságua na perseguição aos militantes aqui do Rio, que suportam o caso do sem-teto Rafael Braga, preso nas manifestação de 2013 com um pinhossol forjado em molotov - foi pra dar angústia no coração revolucionário. Foi pego andando na rua, na dele, sem o menor "senso de esquerda". Em 2015 conseguiu a semi-aberta, mas nesse 2016 adivinhe em qual caso caiu? Pois é... Fecho com o selfie da pixação que, embaixo da qual, lhe valeu duas semanas na solitária da prisão: “Você só olha da esquerda para a direita, o Estado te esmaga de cima para baixo”



9) Existe uma metodologia para criar?

Sim. Todos os métodos são válidos para desenvolver o que você já sabe: a poesia que vem desse lugar secreto e particular, essa já existe. Daí, se quiser fazer sonetos, sextilhas, alexandrinos, haicais... você precisa estudá-los como método de criação. 


10) Próximos projetos.

Retomar o que iniciei em 2014: fazer mais performances e intervenções com linguagem específica do que em dança chamamos de "conceitual". Falando assim, parece vago, e a depender do que se faz: é mesmo. A ideia é lançar-me ao denso, porque o cotidiano é difícil também. Viver é difícil - viver é arte. Se pagarem por isso, tudo bem; se não... Voltamos ao operariado e fim de papo. 

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sábado, 7 de fevereiro de 2015

ENTREVISTANDO JOKA FARIA

(Por Diego El Khouri)

Mais um grande artista nas páginas virtuais desse blogJoka Faria, o escritor de São José dos Campos (SP) e do mundo.


http://entrementes.com.br/



1-  Nos conte como foi seu inicio na  literatura e as influências que marcaram sua formação artística.


Comecei desde cedo a ler. Sempre gostei muito de ler.  Na adolescência comecei a escrever letras de música por uma influência da cultura pop.
Nasci em 1969. Nos anos setenta ouvia-se boa música nas rádios de Caetano, Secos e Molhados, Raul Seixas. E assistíamos boas séries de TV: Perdido no Espaço, Vila Sésamo, Sitio do Pica-pau Amarelo, O Túnel do Tempo e bons filmes. A primeira vez que fui num cinema foi por volta de uns cinco anos em Paraisópolis (MG) e aquela tela enorme me encantou. Era um filme de Jerry Lewis, hoje infelizmente pouco celebrado. Filmes nacionais na infância era Os trapalhões no Cine Palácio em São José dos Campos.
A poesia descobri no colegial com Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo e um livro de teatro do Plínio Marcos.
Li muita coisa da Série Vaga Lume da Ática. Sempre estava na biblioteca da escola lendo de tudo.
Já na década de 90, no inicio, conheci o povo da literatura na Comissão de Literatura da Fundação Cassiano Ricardo. Hoje estas comissões foram extintas. Dalí em diante muita gente e influências.
Que fizeram nascer minha escrita. Sempre tive uma noção ideológica aos 18 anos me filei ao PT.
E esta ação politica faz parte de minha escrita. Escrevo textos políticos e literários, aprendi a separar o joio do trigo.
Desfiliei-me em 2001.


2- Fale sobre o site Entrementes e como anda sua produção atual.

O site Entrementes é um grande acerto da poeta Elizabeth Souza. Sou colaborador. No que ela precisar eu colaboro. Escrevendo quase que diariamente e fazendo muitas entrevistas.
Estou satisfeito com os avanços que tenho tido com minha escrita. Já fui até convidado para mandar um livro para uma editora. Mas ainda não domino bem o processo de seleção para um trabalho. Mesmo assim já lancei o livro Retinas, CDs Kaoticidade, O destino da chuva com a declamação da poeta, atriz Beatriz Galvão.
Sempre fiz trabalhos coletivos e quero voltar a fazer quem sabe uma produção de cinema.



3-  Como anda a cena cultural em São José dos Campos?

Vivemos um grande momento, não só São José, mas o mundo com a consolidação da internet. A produção é cada vez mais facilitada por causa da informática. Muita gente produzindo arte com qualidade. Estou de olho no mundo.
E São José é um dos palcos. Faz tempo que não faço nada de forma coletiva. Mas vejo muita coisa rolar. Infelizmente só vejo. Deve ser por causa da faculdade. Ou a maturidade nos faz caminhar sozinhos.
Em minha memória o tempo não existe. Tudo que vivemos nos anos noventa esta aí próximo.
Há muitos poetas na cidade e gente escrevendo romances. Uma enorme variedade de escritas,
das mais conservadoras até a propostas ousadas.
Edu Planchez, Solfidone continuam a me encantar mesmo Sol tendo encerrado sua produção
pública.
Estes dois artistas fazem minha cabeça. Mas recentemente quatro anos ou mais encontrei
com um Balseiro quem leu Sidharta de Herman Hesse entenderá, o aprendizado foi enorme.
Infelizmente a pessoa está fora de cena. Há poucas pessoas profundas no mundo. Elas valem ouro. E saio nas ruas em busca destas pessoas. Só levamos para outras vidas o que o coração
grava. Se temos bons amigos a alma nunca será pequena.

4- Seu livro de cabeceira.

Qualquer livro de Samael Aun Weor, autor que deu um outro rumo a minha vida, que descobri através de Solfidone num movimento de poetas na Praça Afonso. Pena que teve vários nomes:
Sociedade dos Poetas Vivos, Irmandade Neo Filosófica e por ai vai. Estávamos felizes na praça debatendo filosofia, arte, política e aí rumamos para um Shopping, invadimos a Bienal de Artes Plástica de Sampa, lançamos O livro Seis Passos ao abismo. Franklin Maciel, Joca, Marcelo Planchêz, Abda Almirez, Solfidone. E em 2002 o grupo foi desfeito. Caminhamos só. De lá para
cá estamos só. Solfidone profetizou isto. E ainda numa parceria com Marcelo Planchêz lançamos uma série
de cds de poesia.
E neste meio os autores e livros sempre pipocaram. Descobrimos o mundo de filósofos, esotéricos, poetas. Tenho o costume de ler e quase nem compro livro. O universo os trás para mim.
Cada um com sua importância e em seu momento. Quem escreve vive numa enorme crise existencial e geralmente financeira.
Minha escrita reflete isto.



5- Qual é a função da poesia?

Ela é um desafio. Alguns críticos dizem que não sou poeta entre eles Dailor Varella mas eu vivo
com a poesia dentro de mim e a escritora Rita Elisa Seda sentiu isto. Função é coisa de mercado, Capitalismo, Socialismo. Doenças de nossa civilização. A poesia sempre existiu e vai existir. É uma
busca de desvendar a si mesmo e  acaba sendo o mundo. Poesia, Filosofia estão dentro de todos
nós. Já religião é o costume o social. A camisa de força que nos põem antes de nascermos. Mas adentrar a este supermercado de religiões é divertido e importante. A vida é breve. Não conseguiríamos viver sozinhos numa mata.

6-  Qual a sua opinião sobre a nova geração de poetas?  E o que tem lido ultimamente?

Esta safra de hoje me ajuda a escrever. Me inspiram. Posso ler poema seu e dar o pontapé para
algo que escreva. Li uma entrevista do Barata no Entrementes e voltei a escrever diariamente.
Muita gente boa. Via sites e Facebook anônimos e consagrados. O abda Almirez dizia para não
nos atentarmos aos títulos de um autor mas a obra. O que importa é o escrito e não quem
assina. Então vamos navegando diariamente e nos emocionando com inúmeros talentos.
Já tem surgido muitas editoras: Pena lux, Patua e por aí vai. Quem sabe realizo o sonho de criar
uma. Na mesma linha da editora Escala baratear o livro. Lógico que de forma alternativa. E que não cobre doas autores.




7- O que te motiva a criar?

Viver, dificuldade, incertezas. Queria ter outros talentos, música, teatro.
Sempre declamei e fiz performances e vídeos. Desde 2009 dei um tempo.
Somos mutantes. Quero fazer cinema, teatro, mas é difícil achar parceria.
O meio cultural está absorvendo demais as regras do capitalismo.
O Deus mercado tem tirado a alma de muitos e muitos artistas.
E nos obriga a estar só. Criar e resistir, insistir.
As pessoas se envolvem demais com as estruturas públicas de cultura e estes
editais matam a liberdade. Arte sem liberdade não passa de propaganda 
para manter estabelecido a direita ou a esquerda. Podemos pensar e agir de modo diferente,mas nos custa um caminho difícil e tortuoso.

8- Você acredita que poesia sempre será uma arte para poucos?

Trabalho para que poesia alcance uma multidão. O livro de Paulo Leminski fez sucesso de venda.
Li seu livro de Cartas a Regis Bonvicino. Deveria ser este livro como o ABC de Ezra Pound para
qualquer ser humano que queira fazer arte.
Hoje temos canais de TV a cabo como o Arte 1, Curta, Off e muitos e muitos que divulgam arte.
Vi um documentário da Patagônia no OFF com uma trilha sonora bela.
Sempre li sobre os movimentos de Vanguarda do século vinte e os experimentei a minha maneira.
Salvador Dalli tem uma influência grande no comportamento dos artistas atuais. Assim como
Andy Warholl.
Também vejo uma influencia perversa do materialismo tentando assassinar Deus. Mas Deus
não esta nem um pouco preocupado. Gosto muito de ler Nietzsche.

9-   Uma  frase.

Atualmente : A vida é breve. Vamos para pasárgadas.

10- Como seria a morte ideal pra você?

Já descrevi ela inúmeras vezes em meus escritos. Que seja rápida.
Será que não descobrirei o elixir da longa vida?

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Agradeço esta entrevista. Que venham outras. Citei alguns nomes. Nomes não se citam.
Já aguardava desde  dezembro. Foi um grande prazer.
Tudo é uma grande construção literária. Um grande abraço.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A MÁQUINA DE PRODUÇÃO FABIO DA SILVA BARBOSA II

(Por Diego El Khouri)


Vai aí mais uma entrevista que fiz com o jornalista, poeta, contista e fanzineiro Fabio da Silva Barbosa. Nos conhecemos em 2009 através do Glauco Mattoso. Trombamos pessoalmente na minha primeira viagem ao Rio de Janeiro e desde então ficamos amigos. Hoje ele mora em Porto Alegre e eu no Rio de Janeiro. E como muita coisa aconteceu desde a última entrevista que fizemos, resolvi acrescentar mais esse novo bate papo nesse blog que visa devassar ao máximo a chamada  "cultura alternativa".

 Só faltava uma mesa de boteco pra ficar ainda melhor.


http://rebococaido.tumblr.com/




 1) Comece falando da sua mudança de  Niterói (RJ)  para Porto Alegre (RS). Observou diferenças significativas na produção alternativa das duas regiões? E o intercâmbio com o resto do país, como está?


Estava precisando respirar novos ares e fui o mais longe que podia chegar. O mundo é imenso e ainda existem muitos lugares que gostaria de conhecer. Mas não conhecer como turista, visitando aqueles pontos e blábláblá... Prefiro conhecer como habitante, o dia-a-dia...
Falando especificamente da produção alternativa, observei muitas diferenças, assim como pontos em comum. É um lugar diferente, com pessoas diferentes... Sabe como é. Mas estou curtindo isso tudo. O pessoal aqui é bastante ativo e combativo. Digo isso não só em relação a produção cultural, como em relação ao ativismo político. Se bem que a coisa pelo RJ está intensa também. Sempre teve uma galera fazendo acontecer por aí, mas parece que agora o caldo engrossou e isso é ótimo. As pessoas têm de estar em movimento para o mundo andar. Quem fica parado cria mofo e apodrece.
O intercâmbio com o resto do país continua fluindo. Volta e meia aparece alguma novidade vinda de algum lugar, conheço uma figura criativa... Trocar ideias e experiências é sempre muito legal. Conhecer e absorver é sempre bom para que não nos permitamos ficar trancados em nossas míseras certezas.   


2) E sua produção atual, como está?

Desde que cheguei ao Sul minha produção diminuiu bastante. Muita coisa nova para aprender, pessoas para conhecer, lugares para ver... e por aí vai. Mas as coisas continuaram acontecendo. Mesmo diminuindo o ritmo, continuei a produzir. O Reboco Caído continuou saindo, sou assessor de imprensa de uma associação de moradores daqui, lancei o livro “Escritos malditos de uma realidade insana” (http://www.lamparinaluminosa.com/index.php/os-livros/e-book/59-escritos-malditos), iniciei um projeto no Presídio Central (mas com a mudança na direção do presídio somado a outros acontecimentos o projeto perdeu o acesso ao lugar), retomei minhas atividades com blogs... e mais um monte de coisas. Mesmo assim não estava satisfeito e queria voltar a produzir tanto quanto antes. Em minha opinião, eu estava muito lento. Então comecei 2014 com a “Tarde multicultural sem fronteiras” e estou me esforçando para produzir mais e mais, até retomar aquela produção hemorrágica de antigamente, aquela coisa compulsiva onde nada mais importa.

3) Fale sobre sua opinião em relação aos manifestos que circularam o país na metade de 2013, dê sua avaliação e como anda  o movimento hoje. 

Isso tudo é a continuação de coisas que já vem acontecendo faz tempo. A movimentação por mudanças sempre esteve aí. Em alguns momentos essas movimentações tomam força e os grandes meios de comunicação não conseguem fingir que nada está acontecendo. Daí, os que ainda não aprenderam outras maneiras de se informar começam a ver o que está acontecendo. O problema é que essa galera informada pelos veículos convencionais fica com uma visão deformada das coisas. Na verdade, essas pessoas não se informam. Como jornalista, sei bem do que estou falando. Quem quiser saber o que está rolando nas manifestações deve tirar a bunda da cadeira e ir ver com seus próprios olhos, a mente aberta e o comodismo jogado na lixeira.    
Minha avaliação é que o povo tem de ir para rua mesmo. Esse lance de ficar de covarde em casa, preso a zona de conforto, sofrendo em silêncio, é coisa de bunda mole. As pessoas têm de ter medo é que tudo continue assim. Se a população não for para as ruas exigir seus direitos, nada vai mudar. Quem não reclama é porque está satisfeito. Eu não tô satisfeito.
Agora a última parte da pergunta: Como anda o movimento hoje? O movimento está sendo espremido por essa estrutura criada para continuar privilegiando meia dúzia. Resumiram um movimento que engloba vários movimentos, que já estão há anos na luta, a um grupo e esse grupo vem sendo cassado, taxado e rotulado. O governo está preparando a lei que vem sendo comparada ao ai5. Eles estão agindo com todas as forças para frear a reação do povo. Estão fazendo o que sempre fizeram, mas de maneira mais escancarada, com maior liberdade de repressão.  O que salva é que as pessoas não estão recuando. O povo continua nas ruas, greves continuam acontecendo... Acredito que o momento seja de repensar e reavaliar tudo o que aconteceu até agora para superar essa nova etapa e os novos obstáculos impostos.  Aprender com os erros e acertos.  

4) Ainda continuar acreditando no fanzine impresso?

Claro. Como e por que não acreditaria? Estou produzindo o próximo número do Reboco Caído que sairá impresso e digital. A versão digital tem me ajudado bastante com minha falta de grana para enviar o Reboco para outros estados e países, mas ela nunca irá substituir o impresso. Tenho tido de balancear bem os gastos entre a xerox e o correio.  

5) O que anda lendo atualmente?

Tenho lido bastante zines, blogs, a mídia alternativa e independente e relido os que para mim são clássicos da minha pequena biblioteca domiciliar.

6) Fale sobre cinema.

Tenho visto documentários e o cinema nacional antigo – duas vertentes que sempre curti bastante. O cinema nacional vem ficando muito ralo e perdendo sua essência, embora ainda existam pessoas corajosas lançando materiais bem interessantes por aqui.

7) Poesia.

Uma das muitas formas de se expressar. Mesmo com aqueles que impõem uma série de regras limitadoras e engessantes ao estilo, ainda temos verdadeiros guerreiros defendendo a poesia livre.

8) Próximos caminhos.

Ideias não param de fluir. A mente está trabalhando bastante. Novos caminhos surgem a todo o momento e estou sempre atento a eles. Não ficar pisando no mesmo solo ou se repetindo é sempre interessante. Vamos ver o que acontece.

9) Drogas (tendo em vista a legalização da maconha no Uruguai e o debate constante nos países vizinhos da América no Sul sobre a descriminalização e legalização da cannabis sativa e outros entorpecentes).

Drogas é um assunto vasto. Existem muitos tipos e cada uma com seus efeitos e particularidades. Assim como o aborto e outros assuntos tratados como tabus, o debate sobre as drogas deve ser feito de maneira mais aberta, sem hipocrisia ou preconceitos, não deixando que fique restrito a um pequeno grupo. E a questão não é só legalizar. No caso da maconha, por exemplo, não deveria ser discutido apenas seu uso, mas a própria questão do plantio. De que adianta liberarem a maconha se deixarem sua produção a cargo de nomes como a Monsanto. Acredito que o plantio caseiro seria a melhor solução nesse caso. Mas tudo tem de ser discutido com a população. As pessoas têm de adquirir o hábito do debate, do ouvir, do falar. Nenhuma decisão pode vir simplesmente de cima para baixo.   

10) Como é ver um filho seu (Solano Gualda) também entrando no universo dos fanzines e da cultura alternativa? Ele inclusive chegou a fazer uma das capas do Reboco Caído.

O Solano já fez capa e ilustrações para o Reboco. Fez também os dois cartazes da Tarde Multicultural. Fico bem feliz com isso. A gurizada aqui em casa é ótima.


11) E o movimento Black Bloc?

O Black Block é um conjunto de táticas utilizadas em manifestações. São táticas de ação direta e de proteção aos manifestantes. Os que estão se informando pela mídia convencional ainda não conseguiram entender o que realmente é o Black Block porque essa mídia não tem passado as informações corretas sobre o assunto. Ir direto a fonte é sempre a melhor alternativa. 
   
12) Aqui nesse espaço não há censura. A proposta do Fetozine é a total  liberdade de expressão. Fale o que quiser pra terminar.

Atitude, pensar, refletir, criar, caminhar e nunca parar.


* E pra quem não viu a primeira entrevista que fiz com esse guerreiro dos fanzines:

 http://fetozine.blogspot.com.br/2011/07/entrevistando-maquina-de-producao-fabio.html

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

ENTREVISTA COM NEY GONÇALVES


(Por Diego El Khouri)

Na primeira entrevista de 2014 começo com Ney Gonçalvez, autor dos livros "Valor e Crise"  e também  "Marxismo, Estado e  Crise do Capital":



Em seu artigo Crises do Capital, publicado pela revista eletrônica Espaço Livre, você diz que "o capital , que foi um fator de progresso da humanidade,  e criou a base material da edificação de uma sociedade superior, se converte em um obstáculo para a continuação deste desenvolvimento no interesse da humanidade. Ao ter  esgotado sua missão histórica, surge objetivamente a necessidade de sua substituição. " Como substituir algo tão presente e inserido em nossa sociedade extremamente consumidora?


A teoria econômica convencional nos ensina que o governo tem poder objetivo para controlar a economia capitalista mediante a adoção de políticas fiscais e monetárias kenesianas. Nos anos cinquenta e sessenta, a maioria dos economistas concediam a maior parte do mérito pelo auge do pós-guerra ao Estado e suas políticas kenesianas.
Porém, conforme este auge mudou paulatinamente para uma estagnação acompanhada de preços crescentes, quer dizer, por um prolongado período de estagflação, mais e mais economistas começaram a culpar o Estado. Depois de tudo, se o Estado era, em princípio, capaz de manter o auge e prevenir as quedas, o fato de que o sistema estivera naufragado na depressão era visto muito naturalmente como um erro do Estado.
E assim, grandes economistas se reuniram em múltiplas conferências em todo mundo para pensar sobre as soluções apropriadas para o problema, enquanto a situação continuava deteriorando.
Não obstante, as premissas fundamentais destes tipos de práticas estavam baseadas em um mito: o Estado e suas políticas kenesianas não foram à causa principal do auge do pós-guerra, com seus respectivos elevados níveis de emprego e de produtividade. Por essa mesma razão, o Estado não foi tal pouco a causa principal da atual crise. Pelo contrário, tanto o auge como a queda foram regulados pelo movimento da rentabilidade, e o comportamento básico destes movimentos é parte integrante do sistema.
Quando a rentabilidade era ainda elevada e a quantidade total do lucro crescia com rapidez, como nos anos cinquenta e sessenta, o Estado empurrava essa onda para cima, basicamente suavizando flutuações e reduzindo as tensões sociais derivadas da pobreza e de uma taxa de desemprego relativamente baixa. Os limites objetivos de sua habilidade para controlar realmente a economia nunca foram verdadeiramente postos à prova, devido que, as tendências básicas da economia eram sólidas e não ocorreram tentativas de mudanças reais.

Porém, desde o fim dos anos sessenta em diante, conforme surgiam às crises, o desemprego começava a aumentar e os salários reais e os lucros começavam a diminuir. Os limites reais e a intervenção econômica do Estado se tornaram cada vez mais claros na prática, na evidente incapacidade dos Estados capitalistas de todo mundo para reverter essa situação.
Ascendiam ao poder governos com promessas de mudar as coisas e caiam quando não conseguiam realizar. Enquanto isso, os economistas ortodoxos inventavam novas explicações e receitas a cada hora, as quais de imediatos se tornavam obsoletas. Nenhuma, desse intento, jamais enfrentou a possibilidade de que a falha se encontra no próprio sistema.
Uma vez que formulamos a mitologia do poder das políticas kenesianas, podemos ver a história real da intervenção do Estado sobre uma nova luz. Durante os anos cinquenta e os anos sessenta o Estado estimulou o auge da economia, tentando principalmente mantê-la em curso. Porém, conforme o sistema começava entrar em crise, os problemas do crescente desemprego e da decrescente rentabilidade se tornaram mais severos; o Estado se viu cada vez mais forçado a intervir para levantar a economia a fim de tratar de manter o nível de emprego e apoiar o sistema creditício.
O problema com tudo isso é que, se bem que o gasto do Estado, particularmente o gasto deficitário, é, em realidade, capaz de apoiar a utilização de capacidade. Isto, por si mesmo, faz muito pouco para mudar a taxa de lucro de capacidade normal. Entretanto, por outro lado, o sistema responde cada vez menos a qualquer nível de estímulo. De maneira crescente, os estímulos da demanda se traduzem em inflação. Por sua vez, a expansão real coloca na ordem do dia a estagflação.
Por outro lado, se abandona esta política devido as suas crescentes insuficiências (e na presença de déficit orçamentário), a inflação se mitiga só para ser substituído pelo problema do alto desemprego.
Isso não deve ser interpretado no sentido de que a situação seria melhor sem intervenção do Estado. Pelo contrário, ao apoiar o crédito, para resolver as falências e aumentar os pagamentos para os desempregados e as políticas de bem estar social, com essas medidas o Estado tem até agora evitado o colapso da acumulação. Em vez de um desastroso colapso ao estilo dos anos trinta, temos tido (até agora) a lenta morte da moderna estagflação.
Pese toda intervenção estatal, o colapso pode, todavia, chegar. Se os elementos conservadores são a maneira encontrada de cortar as redes da seguridade social e financeiras, um devastador colapso estará garantido. Os ideólogos conservadores viram corretamente que as políticas kenesianas geram a estagflação. Porém, como não são capazes de admitir, de maneira alguma, que a raiz do problema está no afã do capital pelo lucro, oferecem para a venda a fantasia de que o sistema regressará a uma trilha dourada uma vez que reduza o Estado. Sua medicina é uma receita para o desastre.
Uma crise não é só um período de grande sofrimento, mas também um período de grandes possibilidades. De uma forma ou outra, o sistema capitalista irá mudar. A estratégia do capital está, claramente, em colocar o peso da crise sobre as costas dos trabalhadores e de reestruturar com isso o sistema de modo a incrementar substancialmente a rentabilidade. Conforme a crise se aprofunda, se acentua as intenções de dividir a classe trabalhadora: de jogar o empregado contra o desempregado, os homens contra as mulheres, os negros contra os brancos.
Não temos porque nos submetermos a isso. Uma vez que nos damos conta de que o problema parte da natureza mesma do afã pelo lucro do capital, podemos ir mais além da defesa automática das receitas e políticas kenesianas liberais, mais além de nos apoiarmos na mitologia de um Estado todo poderoso que pode nos salvar de alguma forma da devastação de uma crise, ir mais além dos conceitos de lutas defensivas individuais ou locais.
É claro que, em muitas partes do mundo capitalista, a atual crise mundial é uma situação objetivamente revolucionária. Necessitamos levar a mensagem: ou lutamos pela possibilidade do socialismo ou nos submetemos às regras do capital. Este é, no fim das contas, um aspecto da luta de classe.






Quais as diferenças gritantes dos seus dois livros: Valor e Crise  e também  Marxismo, Estado e  Crise do Capital?

A diferença entre os dois livros basicamente é que no primeiro o objeto de estudo está focado, especificamente na teoria da crise do capital. Trato de uma forma breve a lei do valor em Marx, algo que é de fundamental importância para se compreender  como  é essa lei que é a correia de transmissão que vai ordenar a aparente anarquia das relações de produção do capital ou de sua economia. No decorrer do livro adentro na análise da crise do capital, faço uma análise crítica minuciosa das crises nos clássicos burgueses e como sempre trazendo Marx para o debate. O livro traz um crítica as várias correntes marxistas sobre a crise do capital, as correntes subconsumista, da desproporcionalidade e tento provar que ao contrário que essas correntes apregoam Marx parte de perspectiva da crise não de visão externa mais interna do capital, ou seja, de sua própria lógica interna de movimento, da sua processualidade da acumulação do capital ele intensifica sua contradição entre o trabalho vivo e o trabalho morto que vai se manifestar no que Marx chama na lei tendencial da queda da taxa de lucro e esta chega a determinado nível leva ao capital a sua crise.
Na no segundo livro Marxismo, Estado e Crise do Capital (a sair) o enfoque sai de uma critica da crise e vai para como o Estado burguês atua historicamente como uma muleta fundamental no processo de intensificação da crise cada vez mais crônica do capital, como o Estado cumpre um papel de terapêutica dessa crise, no entanto como o Estado tem como uma característica de ser improdutiva nos seus investimentos e retira sua receita dos impostos e dos empréstimos procurou demostra neste livro como que o Estado nesta sua tentativa de salvar o capital de sua crise crônica, tem cada vez mais de retirar sua receita via imposta dos salários dos trabalhadores já que se este imposto for retirado do lucro do capital privado, para o capital isso terá um soma zero é retirar de uma mão e dar com a  outra, isso não contribuiria em nada para fomentar acumulação do capital nessa base redistributiva feita pelo Estado. Mediante isso demostrar nessa analise o porquê então que o capital privado exige que o Estado privatize as empresas que concorrem com ele em áreas de sua competência, e exige por outro lado que o investimento que o Estado faz na área improdutiva deste o ponto de vista do capital (educação, saúde, transporte público, previdência etc.), seja privatizado, sai da esfera pública para esfera privada, e por último como Indústria bélica é uma base fundamental para o capital em sua crise crônica como destruidora de força produtiva cotidiana para manter historicamente o capital dentro de um limite que não intensifique sua contradição entre suas forças produtivas e sua relação social de produção, ou seja, sua capacidade de extrai um trabalho excedente.

 O artista plástico e ativista Eduardo marinho diz que   "enquanto não houver estrutura partidária no país não haverá democracia”. Concorda? Por que?

Falar de democracia econômica no marco da propriedade privada dos maios de produção onde as decisões correspondem necessariamente à minoria possuidora é, no mínimo, um abuso de termos. Realmente, uma verdadeira democracia econômica só pode ser construída sobre a base da propriedade coletiva dos meios de produção, o que implica uma gestão da economia seguindo normas diferentes das da propriedade privada. Entretanto, a propriedade coletiva dos meios de produção evoca para muitos, pelo contrário, o espectro do autoritarismo, da repressão da democracia, da planificação centralizada e burocratizada onde a decisão imposta à população segue estando nas mãos de um punhado de administradores onipotentes e imóveis. E esta visão das coisas, é muito necessária reconhecê-la, se baseia na observação da realidade do conjunto dos países que se diziam socialistas que realizaram a expropriação do capital e instituíram a propriedade estatal. Por outro lado, em relação com esta triste realidade ela atuou como um repelente para milhões de trabalhadores com relação à ideia do socialismo, alguns até tentaram falar de uma “terceira via”, a do capitalismo civilizado, situando ele entre o capitalismo e o coletivismo autoritário e burocratizado dos países do Leste. Entretanto, a “terceira via” segue sendo uma variante da “primeira via”, a da propriedade privada, e esta submetidos a suas regras ainda que tenha, podido ser um impulso do movimento operário, o veículo de medidas que responderam as aspirações operarias em uma época deste agora já passada em que as condições econômicas gerais permitiam ainda certa liberdade na orientação política.

Como você vê essa geração sem utopias atreladas a conceitos impostos pela mídia e o sectarismo que há nos meios ditos "revolucionários" com esses manifestos e barulhos contra o governo presente?

Primeiro uma revolução não se faz negando pura e simplesmente a democracia representativa do voto burguês, um processo revolucionário para se dá no terreno histórico necessita de duas esquemáticas dialéticas fundamentais, a objetiva e a subjetiva, a objetiva esta dada, ou seja, a questão material, o nível criado pelo próprio capitalismo das forças produtivas esta em um estágio muito elevado e tem todas as condições para suprir toda população mundial em todos os sentidos com relação as suas necessidades materiais como: alimentação, vestimenta, saneamento básico, educação, moradia etc. e essa foi a grande missão histórica do capitalismo que era desenvolver as forças produtivas para se dar em quantidade e qualidade ideal essas condições materiais. Quando se chega a certo nível material as forças produtivas criadas pelas relações de produção do capital que é a produção voltada para o lucro entre em contradição com a possibilidade de produção deste lucro, quando se dar essa circunstância periodicamente o sistema entra em crise, essa crise nada mais é que um desequilíbrio do sistema entre a relação entre o trabalho necessário e o trabalho excedente, onde está situada a origem de toda crise do capital, ou seja, a impossibilidade de que com essa força material criada pela própria relação de produção do capital e dentro dessa relação à lei de acumulação do capital é que rege essa dinâmica do desenvolvimento das forças produtivo. O capital não consegue extrair um trabalho excedente suficiente da classe trabalhadora para que ele possa ter uma acumulação acelerada que possibilite o capital gerar sua autovalorização dentro do nível da força produtiva que ele criou, ou seja, dentro de certo nível de sua composição orgânica do capital. Não apenas produzir o capital, mais uma reprodução de uma forma ampliada, essa é a lógica do capital, o capital não produz para suprir as necessidades materiais do individuo mais só produz se essa produção lhe possibilita um lucro e que este lucro sege condizente com uma taxa de lucro com relação a sua massa de lucro e que por sua vez esses dois fatores esta relacionado com a composição orgânica e que estes três fatores contraditórios em si no movimento do capital possa gerar uma acumulação acelerada essa relação contraditória dessas três categorias que estão intimamente relacionadas que vai culminar na lei da tendência da queda da taxa de lucro (esta lei é segundo Marx a lei mais importante dentro do ponto de vista histórico), quando esta rentabilidade não possibilita essa acumulação devido à forma contraditória que se da à lei de acumulação do capital o sistema entre em crise, e em cada crise que ele sai à próxima é mais forte, poderosa, por intensificar a contradição entre o trabalho necessário que se torna historicamente mais reduzido e o trabalho excedente, até que é chegado o momento histórico que ele entra em uma crise do modo de produção ou uma crise permanente que ele passa, então a necessitar de muletas externa a ele para manter-se como modo de produção prevalecente, ou seja, como modo de produção capitalista com sua relação de exploração característica e especifica que é a relação entre o capital e o trabalho assalariado que é sua especificidade histórica e como tal relativa. Chegado nesse limiar neste limite entre as forças produtivas e as suas relações de produção se dá uma viragem histórica, ele deixa de ser um modo de produção que desenvolve as forças produtivas e passar a criar um mecanismo de destruir essas forças produtivas para que ele possa se manter dentro de um limite dialético que não lhe ofereça um risco para sua autodestruição como modo de produção, um desses mecanismos dissipadores de forças produtivas e a criação das indústrias bélicas um departamento de produção completamente improdutivo, bem como também indústria do entretenimento etc. e a muleta e a terapêutica fundamental para isso é o Estado capitalista. Logo as bases matérias esta dada para uma nova sociedade, a crise esta estalada só que o sistema não vai cair por uma crise econômica se a questão subjetiva não se de, que é a organização das massas oprimidas com uma consciência de classe de si organizada para destruir essas relação de produção e exploração decadente do capital, e instituir uma nova relação social de produção gerida de acordo com os anseios da sociedade. Como vimos o capital vai tendo sobre vividas de destruição sustenta pelo seu Estado. Então, o voto nulo não é puro e simplesmente negar o sistema eleitoral burguês, mais sim, elevar o debate para as massas, que existe outras forma de luta politica e não só essa via que tem como limite o capital, e todas suas consequências danosas para a humanidade que é a manutenção de sua relação social de produção acarreta, que esta democracia representativa do voto burguês só reforça essa dominação do capital, mais que existe outra forma de luta politica revolucionaria, que essa sim é a única guerra justificável dentro do ponto de vista histórico, pois, é a única que leva a emancipação da humanidade.


Fala  que quiser. O espaço aqui é livre.


Esperar que no futuro todas as lutas fossem menos violentas e que se desenvolvam métodos pacíficos de produção e distribuição. Existe um abismo entre esta forma de ver as coisas e o princípio geral que domina no Manifesto do partido comunista: “A história de todas as sociedades que existiu até agora é uma história das lutas de classes”. Aqui não se considera a luta de classe como um mal, mas sim, como uma força dinâmica, como o motor da história. Ao combater pelos seus direitos com as classes dominantes, a classe explorada e oprimida cria uma nova situação histórica. Arranca das classes dominantes novos direitos e toda sociedade eleva-se por este meio a um nível superior. Nesta concepção, a luta de classe não termina com a abolição do feudalismo por parte da burguesia, mas, que são inerentes as relações mesmas entre a burguesia e a classe trabalhadora. Segundo Marx, o processo histórico, longe de se fazer mais pacífico a medida que avança o progresso, se faz mas violenta com o desenvolvimento do capitalismo e os conflitos de classe e se transforma no instrumento decisivo da transição do capitalismo para o coletivismo.