domingo, 2 de outubro de 2011

MARCOS ALVES LOPES- O CACHORRO MALDITO

(Por Diego El Khouri)

Marcos Alves Lopes, o "Cachorro Maldito". Dono de uma fala tranquila porém ácida, esse poeta polêmico perambula pela grande Goiania lendo seus versos e divulgando sua arte sem nenhum tipo de receio. Seu primeiro livro,o " Gozo desmedido", está pra sair. Poderia fazer um ensaio sobre sua obra, mas ninguém é melhor do que ele mesmo para falar de sua poesia. Diz aí Marcos, solta o verbo:

No campo da poesia o que podemos destacar de Marcos Alves Lopes?
Que até agora houve muito gozo através da escrita. Alguns insistem em chamar esse gozo desmedido de poesia, outros preferem chamar de coisa qualquer, exceto poesia. Quanto ao destaque no campo poético, não tenho muito a contribuir, uma vez que a poesia é um efeito causado em mim mesmo, e, por simbiose(ou não!), nos leitores. Portanto, quem melhor pode dizer das contribuições de Marcos Alves Lopes são os próprios leitores, que estão sempre acompanhando as constantes oscilações da escrita. O que é possível dizer é que nessa escrita desmedida há um apreço grande pelades/forma; desforra a toda estagnação poética (se issodestaca, destaque isso).

Sua poesia despertou quando você passava um problema sério de saúde. Conte-nos essa experiência.
Na verdade, a poesia não começou depois de um problema de saúde, ao contrário, a úlcera duodenal serviu como material poético, assim como o sequestro sofrido aos quatorze anos. Associo a úlcera à composição artística, pois fiz da dor, esse vulcão escondido internamente, suporte à criação. Na concepção do poetador, o desprazer e o prazer estão na mesma carne da moela -  a criança sofre com a mesma intensidade que sorri. Nós, adultos, entretanto, vivemos submetidos à ideia de bem-estar e nem sequer podemos reservar alguns segundinhos de vida ao sofrimento. Não há dúvidas que são os ditames morais que nos aprisionam em formas que não se sustentam nem no mais tolo mortal. A úlcera aberta representou um objeto de gozo, o que possibilitou a criação artística - não é à toa que há vários poemas com essa temática. Nessas circunstâncias foi cunhado o termo “poetador”, isto é, o gozo a partir do desprazer. A poesia da dor talvez seja a face mais sublime da angústia! Não se trata de uma queixa, mas uma construção nova a partir do objeto “dor”,e que só pode se dar via linguagem. Assim, tanto o sequestro quanto a úlcera aberta formam um rico arsenal ao poeta, um rico arsenal que traz como estandarte a linguagem.

Um tema recorrente aparece em sua poesia, a merda. E, na sua arte,  ela se apresenta de duas formas. A merda maiúscula e a minúscula. Defina-nos essa diferença.
Há merda e MERDA. Diria que a melhor definição para essa merda toda está nos poemas criados. Vai ser lançado em outubro de 2011 um livreto, pelo projeto Letra Livre, chamado “Um atentado, quem sabe”. Nesse livreto (de vinte poemas), recrio as possibilidades de um atentado através do resto, isto é, da MERDA. Os restos de cada sujeito seriam uma maneira de reinvenção! Não sei conceituar com precisão a “merda”, embora ela sempre esteja presente. Todavia, prefiro ver no bagaço da laranja arremessado contra a parede esse resto que nos resta. Afinal, como diz Marcos Alves Lopes: “Do caos, só a MERDA restou!”.
Você acha possível viver só de arte?
É possível viver dos restos? No bagaço caído pode haver bem mais caldo do que na laranja virgem deixada no fruteiro. Ah, as virgens são tão desinteressantes!

Muito novo, você já era professor e inclusive enfrentou manifestações, greves etc. Você, que está inserido no meio da educação de uma forma ou de outra, como vê o ensino no país?

O apreço pelo resto é uma viagem sem volta! O poetador passa por situações muito parecidas com a do professor. Isso porque ambos estão em contato com os restos sociais. Essa talvez seja a sacada da metáfora da “merda”, já que todos fazem da merda algo a ser escondido. A educação não foge disso! Os exames (prova imbecil, melhor, prova Brasil) estão aí para maquiar os dados, talvez por isso haja preparatório para esses testes. Ser professor é enfrentar todos aqueles que tentam esconder o caos da educação; é acordar cansado e dormir morto, e mesmo assim procurar uma maneira de gozar! Uma pergunta possível seria: é possível viver da docência? Fazer greves, participar de manifestações é praticamente um dever a quem percebeu que mesmo diante do maior caos, a MERDA restará.


Você costuma dizer que dentro da escala evolutiva você é um cachorro. Por quê?
Os cães são mais interessantes que os mor(t)ais (entendam humanos). Isso porque os cães não escondem os instintos animalescos que os governam. Os seres ditos humanos criaram uma redoma e a chamaram de “humana”. A partir daí, as religiões, a família, o Estado, fizeram questão de fincar o estandarte da falta de tesão, crivando o ser por águas do “humano”. Mas há os imortais ou imorais (imor(t)ais) que, apesar do corpo humano, vivem sem camuflar o desejo. Os cães em forma de gente!...

Quase todo mês você promove um sarau de poesias na casa do escritor marxista Ney Gonçalves, na cidadechamada Santo Antônio de Goiás, um pequeno interior. Aideia é difundir a arte nas pequenas cidades ou simplesmente fugir um pouco da capital?

A ideia principal é reviver o tempo do útero canino. Ir a Santo Antônio de Goiás é encontrar com diversos cães que habitaram o recinto perdido. Contudo, fazer caridade é um tanto perigoso, então, esse papo de levar bobos ao sarau satisfaz somente aos cristãos. Vai quem tem sede de poesia! O convite é aberto e gratuito, mas puxar pelas mãos de quem há muito já as perdeu, soa como ironia humana.

Você fala sobre"o pau interior que a mulher tem dentro de si". Umas tem um enorme falo interno, outras, um pequeno. Explique-nos melhor essa teoria polêmica.

Para começar, não existe a mulher. O que há é a-mulher, e pronto! Cada uma possui uma forma distinta de compreender a existência, assim, seria estranho dizer “a mulher”. No lugar de usar o artigo definido “a”, prefiro fazer desse “a” um prefixo de negação. Mulher ou homem é uma questão de linguagem, uma questão de identificação que vem desde os primeiros anos de vida. Dessa forma, ninguém nasce homem ou mulher! Mas, sendo mais objetivo: entendo que cada mulher tem um poder intrínseco a ela. Quando é dito de um “falo interno”, digo sobre a possibilidade de cada uma ser uma nova mulher (esse poder intrínseco não é aleatório, ao contrário, é uma herança cultural que várias mulheres herdaram). A biologia corrobora com essa metáfora do falo interno, uma vez que as mulheres não possuem um canal vaginal do mesmo tamanho, assim como um homem se difere de outro, fisicamente, pelo tamanho do pé, das mãos, do falo. Penso que “Falo” seja uma palavra apropriada para dizer do poder da mulher, já que “falo” está diretamente ligado à linguagem, à fala. O maior poder de dominação feminina está na colonização via fala. Assim, muitas mulheres exercem o poder controlando o dizer do homem e da mulher (a força do homem pode ser a linguagem da mulher!). Indago: por que dizer “falo” incomoda tanto?

O que você diz das mulheres, principalmente as feministas da “turma da esquerda”, o chamarem de extremamente machista, tendo como base sua poesia?

M. Lopes costuma gozar desmedidamente dessa “turma de esquerda”. Antes de tudo, a esquerda é muito interessante, muito!Vou além: a esquerda de fato não me lê como problema; marxistas e anarquistas compreendem o que digo geralmente. Melhor, a esquerda que luta por uma sociedade sem Estado, que não faz parte de religião ou partidos políticos, geralmente compreende meus escritos. Entretanto, essa “turma de esquerda” que costuma me pintar de machista ou reacionário são pessoas (a maioria) integrantes de partidos de direita, como o PT,PCdo B ou outras porcarias por aí, até mesmo porque no Brasil não há partidos de esquerda. Desprezo esses que veem nas eleições a saída cristã para as almas escarnecedoras. Ainda, essa turma partidária criticou bastante o politicamente correto, entretanto, foi criado o próprio arcabouço do policialmente esquerdo. É extremamente perigoso esse controle exacerbado da linguagem: dizer “pau” é considerado um discurso machista! Ah, poeta aprisionado ao discurso de casta? A turminha da salvação (inclua todos os partidos e religiões possíveis) cria novos vocabulários para o policialmente correto e, o pior, é que geralmente os poetas são policiados.  

No sarau de poesias ocorrido na Revirada Cultural, nesse ano (2011), em Goiânia,a poetisa Anna Alchuffi leu um texto de sua autoria chamado “Goiano pau no cu”, que causou diversas reações, como um tapa no rosto da moça e processo na justiça. O que achou dessa reação e qual sua opinião sobre o assunto?
Interessante! O que sai da monotonia é escasso, e traz reflexão! O fato de alguém ser agredido por um texto qualquer é algo a se pensar. Alguém que conhece o teor do que está escrito ir à frente e ler o texto (mesmo sabendo que estava em frente a um bar) também é interessante. Anna foi completamente corajosa de ler esse texto num espaço repleto de goianos. Agora, um fator interessante nessa coisa toda é que quem bateu nela não era goiano e, sim, paulista. Ou seja, o goiano continuou como diz o texto: [...]boa parte dos goianos estrutura os próprios argumentos pelas metades, todavia, não o faz perante público; estão sempre a analisar o discurso alheio (melhor, fofocando sobre o outro), jamais propagam livremente o que querem dizer. É por isso que normalmente comparece essa fala-de-canto, repleta de sorrisos tortos, deboches, chistes etc. Uma linguagem pau no cu! [...]
Esse texto foi muito mal interpretado. Primeiramente, quiseram acusar o autor de não ser goiano. Quanto a esse argumento é triste dizer que a condição pau no cu não está somente nos goianos, não! Definitivamente, nossa composição cultural nos impeliu a essa condição frustrante. Mineiros, goianos, cariocas etc. possuem menor ou maior possibilidade de ser pau no cu, mas dificilmente fogem dessa realidade. Melhor seria se lessem o texto e tirassem as próprias conclusões:http://marcosalveslopes.blogspot.com/2011/08/pau-no-cu-goiano.html


O poema “Pai Nosso”, que sempre abre os saraus de poesia noCentro Cultural Goiana Ouro e que virou símbolo do selo independente Letra Livre, foi parar nos ônibus. Um sarau promovido pelo produtor cultural Kaio Bruno dentro do eixão. Qual a reação dos passageiros  ao ouvirem  o poema, levando em conta que o ônibus é um dos lugares mais cristãos da sociedade?
Pai nosso que estais terra
Profanado seja vosso nome
vem a nós, nosso reino
Seja feita nossa vontade
Na terra ou em qualquer lugar

Os desejos de volúpia nos dai hoje
Perdoai nossas crenças
Assim como fingimos acreditar em vós
Deixai-nos em plena tentação
Mas tirai-nos da mente a tola ideia do inferno
Amém

Enquanto houver a insistência fanática do cristianismo, haverá o Pai Nosso! É difícil falar sério de poesia com alguém que quer salvar o outro...  Salvação é o dejeto de cada um, ou seja, é deixar a condição canina comparecer sem medo. Desde quando comecei a participar do sarau Letra Livre, organizado pelo amigo Kaio Bruno, venho insistindo em dar uma conotação pagã ao evento, talvez assim, outros se sintam mais acolhidos naquele lugar. Declamar o “pai nosso” no ônibus mais lotado de Goiânia (Eixo Anhanguera) é possibilitar uma reflexão sobre o assunto pouco mencionado, religião. O que muito incomoda é dizerem que “religião e futebol não se discutem!”. Mera tolice de mor(t)ais! A recepção dos passageiros foi surpreendente, apesar das caras e falas tortas, somente uma senhora quis me bater até hoje. Todos conseguiram me ouvir! O que deve ser interessante é a produção estabelecida a partir dali... Como deve ser o processo depois que o grupo sai do ônibus.

Devido o advento da internet você chegou afazerpoemas em parceria com escritores de fora, como a poetisa Cacau Cruz. A Interneté sim a grande revolução desse século? O livro impresso deixará de existir?

Nesse momento pós-pau duro, tem lugar para tudo, até para o livro. 
As parcerias com pessoas de outros estados são importantes, pois possibilitam a onipresença do poeta. Além disso, várias novas ciências de bar são introduzidas ao fazer poético a partir dessas conversas com Cacau Cruz, Alexandre Mendes etc.

Seu livro de cabeceira.
Gozo desmedido.

A visão que tem de Deus.

É melhor rezar o Pai nosso!

O amor:
Amor de um é a masturbação de vários!
.
O tesão:
Vem sempre subsequente
não se satisfaz completamente
ou
Bole
bole
que bolina
a mais santa das meninas

Pra encerrar, fale-nos sobre seu primeiro livro, o “Gozo desmedido” e de seus novos projetos.

É preciso ler o livro e, quem sabe, gozar desmedidamente! Quanto aos projetos, há parcerias boas com alguns poetas, além disso, a participação do projeto “Literatura no Eixo” vem propiciando uma nova forma de ouvir as demandas dos sujeitos contemporâneos. Estar nesses projetos é aproximar Marcos Alves Lopes de mim.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

GLAUCO MATTOSO, O "POETA DA CRUELDADE", PARTE II



(Por Diego EL Khouri)

No ano que Glauco Mattoso completa sessenta anos de idade tive a honra de entrevistá-lo novamente. Já ultrapassando a marca dos quatro mil e quinhentos sonetos, esse guerreiro maldito fala de poesia, sadomasoquismo, drogas, deficiência visual, cultura alternativa, etc. numa sinceridade única. Mergulhem em suas idéias e em sua arte:

Sessenta anos de existência e boa parte deles dedicada à poesia. O
que há pra ser dito nesse ano atípico?
Talvez apenas mais queixas quanto aos problemas de saude, que vão
se accumulando. Mas, si a carne é fraca (e si fica velha), a cabeça do
poeta continua moleque, revivendo as aventuras da infancia.

A podolatria em sua obra é trabalhada insistentemente com a idéia de
se caracterizar como o dominante e não dominador. Essa podolatria
excessiva é apenas tema em poesia ou é algo de fato vivencial?

Não sei si foi isso que você quiz perguntar, mas, ao longo da vida,
tanto pisei como fui pisado, no sentido proprio e no figurado. Mas,
emquanto ainda tinha visão, às vezes eu podia escolher si levaria um pé
na cara ou si pisaria a cara de alguem, mas, agora que estou cego, só
posso lamber, bem lambido, o pé de quem queira me pisar... (risos)

"A planta da Donzela", releitura da "A Pata da gazela" de José de
Alencar é uma obra que descaracteriza a moral no romantismo. Qual o
impacto que a obra causou no mundo acadêmico e de que forma você encara
o sadomasoquismo?
O livro chegou a ser estudado até como these de philosophia em
Brasilia, e acho que voltará a ser assumpto quando a editora Tordesilhas
o relançar. Quanto ao sadomasochismo, eu o introduzi no livro porque faz
parte, de facto, da minha vida, ja que um cego vive sendo escravizado...
(risos) A proposito, a Tordesilhas é o sello que acaba de publicar um
livro meu de contos sadomasochistas chamado TRIPÉ DO TRIPUDIO E OUTROS
CONTOS HEDIONDOS, uma edição luxuosa, de cappa dura, mas que tem preço
de livro commum.

De que forma você concilia o paradoxo em sua vida e sua obra, que é
a raiz de toda sua literatura?

Nem sempre é possivel conciliar o mocinho e o bandido que vive em
cada um de nós, como o certo e o errado, o amor e o odio e outras
contradicções. Mas si a gente tem consciencia da incoherencia ja é
alguma coisa...

Em algumas seleções de poemas você duelou com jovens escritores como
por exemplo Danilo Cymrot e Leo Pinto. Nessas aventuras poéticas você
sempre estava no papel do massacrado e humilhado. A função dessa atitude
de subordinação masoquista se deve a que?
Isso é um reflexo do que rola na vida real. Às vezes sou
escravizado por moleques folgados, às vezes apenas desafiado
poeticamente, mas na litteratura não fico tão por baixo quanto na vida
real... (risos)

Saiu uma conversa (inclusive em um soneto você aborda esse tema) que
logo você vai encerrar sua carreira literária. Depois de quatro mil
sonetos não tem mais nada a dizer?

São quattro mil os que apparecem no site, mas agora ja passei dos
4500. Na verdade, fallei que ia me aposentar para que parassem de me
convidar a tantos recitaes, saraus, debattes, palestras e entrevistas na
midia, coisas que me estressam muito porque exigem minha presença nos
locaes mais diversos. Mas na practica é impossivel parar de versejar...
É como tentar parar de fumar, beber, comer chocolate ou tomar remedio...
(risos)

Como é para um escritor que valorizava tanto em sua arte o lado
visual perder a visão?
Comparo essa tortura à de Sansão quando foi capturado pelos
philisteus. Sinto-me um escravo à mercê dos algozes, prompto a dar-lhes
motivo para que tirem sarro às minhas custas, mas a poesia equivale à
fé e aos cabellos de Sansão, isto é, à força vital e creadora.

Na época em que divulgava seu fanzine, o "Jornal Dobrabil", época em
que ainda não existia a internet, quais eram as ferramentas para
divulgação de cultura alternativa?
Só o xerox e o correio, no meu caso, ou o xerox e a distribuição de
mão em mão, no caso dos outros poetas marginaes que frequentavam shows,
peças theatraes, etc., com risco de prisão, porque era epocha de
dictadura e qualquer um que pamphletasse podia ser accusado de
communista.


Qual sua opinião sobre a descriminalização, regulamentação e
legalização da maconha?
Tudo é questão de preconceito. A nudez nas praias e os casamentos
informaes, com filhos de diversos paes, ja foram coisas muito
condemnaveis e hoje são vistas com naturalidade. Os costumes sempre
antecedem as leis. Só fico puto quando um usuario me critica por ser
viciado em chulé. Porra, como é que elle quer ficar livre do
patrulhamento si elle mesmo patrulha o vicio dos outros? Cada um com o
seu! Uns cheiram pó, outros cheiram colla, outros chulé, ora! Uns gostam
de fumar baseado, outros de curtir um chulezinho basico...

Qual é a função da poesia?
Para mim, desabafar. Uma especie de exorcismo, de catharse ou de
therapia, como preferirem. De quebra, ella ainda diverte os outros, alem
de desreprimir o auctor...

Qual a sua opinião sobre a nova geração de poetas?
Não posso generalizar, mas muitos não teem a menor noção de
versificação. Não que seja obrigatorio, mas até os repentistas
analphabetos apprendem regras e macetes para serem bem acceitos entre os
cantadores e chordelistas. Desrespeitar regras é direito de todo poeta,
mas elles poderiam pelo menos deixar de serem preguiçosos e podiam
estudar um pouco de versificação, é o que eu acho.

Nesse ano foi aprovado a união homossexual. Quais as consequências
positivas que isso trará?

Como no caso da nudez e do divorcio ou dos segundos e terceiros
casamentos, a lei apenas vem regulamentar aquillo que ja é practicado,
mas sempre ajuda quando algo passa a ser previsto em lei.

Como você vê esse boom do fanzine que está ocorrendo atualmente com
muitas produções, filmes a respeito, blogs, etc?
Sempre fui a favor de qualquer revival, seja no rock, no cinema, na
litteratura ou na contracultura. Como no caso do vinyl e da victrola, o
velho zine em papel nunca será substituido por technologias digitaes,
mas sim complementado e compartilhado por outros meios.

O termo "poeta da crueldade" que transferiram para você, tem alguma
coisa a ver com o teatro do horror do Antonin Artaud?
Sim, claro. Mas não só isso? tambem com o "poeta da violencia" no
cinema, Sam Peckinpah, e com a ultraviolencia de Burgess e Kubrick na
LARANJA MECHANICA. São connexões que existem entre todos os auctores
sensiveis à deshumanidade do homem.

Ainda continuar acreditando no soneto?
Sempre. Como o musico actual acredita na sonata barroca ou o
rockeiro no rockabilly, ou o sambista no chorinho.

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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

THINA CURTIS E SUA ARTE



(Por Diego El Khouri)





Thina Curtis. Fanzineira ativa desde os anos noventa. Responsável pelo primeiro Fanzinada que ocorreu no Brasil (e foi esse ano em sampa, dia 29 de março) em comemoração ao dia internacional do fanzine.

Você está na produção de fanzines desde os anos noventa. De lá pra cá o que mudou na cultura alternativa?

Mudou muito, até devido a essa necessidade atual através dos meios de mídia rápida e globalizada.Isso possibilita inúmeras ações, fato que antes era meio difícil, até mesmo porque os contatos eram feitos por conta e no boca-a-boca.


 Spell Work já é um clássico. Um painel interessante e profundo do que se está produzindo no país. Além de fortalecer a cena o que pretende com esse fanzine?

 Obrigada, imagina, temos muitos fanzines incríveis pelo Brasil afora, de vários segmentos que são conhecidos lá fora e pouco por aqui e vice versa.
Acho que o que pretendo já é o que está acontecendo.É reunir pessoas que estão fazendo algo, são articuladores,ativistas, multiplicadores, não só do meio alternativo, mais também como cidadãos conscientes.Na edição #8 mesmo foi a prova real que isso é possível,um time e tanto do underground.


O Fanzinada que se realizou em 29 de março desse ano (2011) que comemorou o dia mundial do zine foi um marco na cultura alternativa. O que te levou a ter essa iniciativa e como foi o evento?

 Foi realmente comovente para mim!Há tempos venho tentando reunir o pessoal, mais a incompatibilidade de datas,locais e outras coisas sempre adiava este encontro.
Sempre senti a necessidade de reunir não só os fanzineiros(as)mais artistas no geral que estão por aí fazendo seus trabalhos e não tem muito espaço para divulgarem também, e quando começamos a nos mobilizar e vi que estava começando a dar certo senti um frio na barriga!Era um sonho muito antigo, devo agradecer muito aos meus amigos e parceiros que abraçaram a idéia, a Olga e o pessoal do Gambalaia por apoiarem.O evento reuniu muita gente fera,todo mundo junto somando multiplicando.Foi a prova que quando se quer algo é possível.
Reunimos poetas, grafiteiros, cineastas, atores, desenhistas, cartonistas entre outros artistas e claro muito fanzineiros(as).
O evento rendeu e fortaleceu novas e fortes amizades, e também novos projetos e convites para participar com a Fanzinada em vários locais do Brasil e também fora. E claro comemorar essa data pela primeira vez por aqui foi histórico!


Fanzine é um tipo de revista que existe desde 1929 não aliado as grandes mídias. Por que ainda muitas pessoas não conhecem esse tipo de trabalho?

 sinceramente não sei te responder o que acontece.Hoje em dia até entendo que a nova geração já nasceu com a internet e suas ferramentas, também muita gente conhece fanzine com outros nomes:como jornal, revista, folhetim etc...
E também temos que levar em conta que no nosso país as pessoas ainda lêem muito pouco, e o acesso a informação ainda é impreciso.

O documentário  Fanzineiros do Século Passado produzido por Marcio Sno, que inclusive você participa, mostra a força que está o zine hoje no país com esses trabalhos de lembrança e divulgação  e a importância que ele teve no Brasil. Nos fale dessa película e como era possível divulgar essas revistas antes do advento da internet?

 Realmente o documentário do Márcio Sno já é uma referencia nacional para todos nós que fazemos fanzines.É emocionante assistir todos aqueles depoimentos, o doc veio consolidar o revival dos zines.eu sempre fui muito a shows, eventos literários, e alí era distribuído para pesoas que gostavam e muitos eram leitores assíduos e também pelas cartas que era vital para nossa comunicação e também era muito prazeroso.Fiz muitos amigos e trocavamos muitas cartas, idéias, presentes era um intercâmbio que possibilitava você ter acesso ao que estava acontecendo,informações a saber por exemplo o que acontecia no RJ,MG,Brasília,Recife,Argentina,Europa... tenho amigos que se tornaram grandes amigos até hoje.Tb possibilitava as ações aconteceram.
Eu mesma organizei vários eventos com shows, poetas, exposições,zines entre outras coisas através de cartas e horas no orelhão(com direito a saco de fichas)e gente olhando feio na fila (rs).
 Existe competição e intrigas no meio alternativo?

 Eu pessoalmente tive poucos problemas nessa longa jornada,há muito tempo atrás o que acontecia era muitas pessoas serem muito radicais e não entenderem que o fato de você por exemplo gostar e se identificar com um estilo de música, não devia se misturar com outros e algumas desavenças foram por isso,por bobeira, mais eram umas discussões intensas tb!Mesmo pq o fanzine é muito livre e você não se prende muito a isso quando faz fanzines.

Acredita no fim do livro impresso?

 Não. O prazer de se ler um livro, sentí-lo,carregá-lo é indiscutível,acredito que as pessoas até comecem a ler mais os e-books como complemento, mais não deixem de ler, de comprarem 
seus livros.

Qual o por que de produzir arte?

 Paixão,necessidade, conhecimento, liberdade, válvula de sobrevivência.

Que retorno o fanzine te dá?

Um retorno que como sempre brinco com as pessoas mais próximas, é algo que mastercard não paga!É muito legal este vinculo que você cria com as pessoas, o reconhecimento e não estou falando em dinheiro, são valores reais, uma troca de energia, satisfação, carinho e amizade das pessoas que você vai conhecendo. Eu posso dizer que evolui muito como pessoa depois que conheci e comecei a fazer fanzines. Uma artista engajada e intensa em suas produções alternativas de muito conteúdo e força. 


Você está pretendendo levar pra Goiânia o Fanzinada. Como será esse novo evento? O negócio é rodar o país?

 Puxa!Já estamos articulando isso e creio que irá dar certo né Diego?É bom a galera de Goiânia ir se preparando, que estamos chegando pra zinar tudo!Estamos analisando algumas possibidades, mas vem muita coisa boa por ai hein! Sim, já surgiram alguns convites para alguns lugares, o Rogério, (Oficinativa) por exemplo, participou de uma ocupação em (Piracicaba-sp),a idéia é circular mesmo,não só aqui no Brasil como na América latina também.
Também estamos articulando um evento que promete render muitos frutos e reunir a galera do Brasil e América Latina Num espaço virtuoso:a Fanzinoteca Mutação do grande Law Tissot, já temos apoio da Ugrapress, alguns zineiros(as) já estão se preparando para o evento vamos torcer para dar certo.




Qual a sua grande imprudência?

Sou um ser humano como todo mundo,tenho minhas imprudências,nada exagerado.

Talvez minha maior imprudência seja viver a vida como eu quero, sou aquariana convicta. Gosto de liberdade e pago um preço grande por isso, atormenta e assusta um pouco as pessoas. Sou uma pessoa deteminada, sei o que quero e sei meus limites...
Sou um ser humano como todo mundo,tenho minhas imprudências,nada exagerado.
Até a Fanzinada-Goiania!!!
Thina Curtis
Spellworkfanzine.blogspot.com