quarta-feira, 31 de agosto de 2011

THINA CURTIS E SUA ARTE



(Por Diego El Khouri)





Thina Curtis. Fanzineira ativa desde os anos noventa. Responsável pelo primeiro Fanzinada que ocorreu no Brasil (e foi esse ano em sampa, dia 29 de março) em comemoração ao dia internacional do fanzine.

Você está na produção de fanzines desde os anos noventa. De lá pra cá o que mudou na cultura alternativa?

Mudou muito, até devido a essa necessidade atual através dos meios de mídia rápida e globalizada.Isso possibilita inúmeras ações, fato que antes era meio difícil, até mesmo porque os contatos eram feitos por conta e no boca-a-boca.


 Spell Work já é um clássico. Um painel interessante e profundo do que se está produzindo no país. Além de fortalecer a cena o que pretende com esse fanzine?

 Obrigada, imagina, temos muitos fanzines incríveis pelo Brasil afora, de vários segmentos que são conhecidos lá fora e pouco por aqui e vice versa.
Acho que o que pretendo já é o que está acontecendo.É reunir pessoas que estão fazendo algo, são articuladores,ativistas, multiplicadores, não só do meio alternativo, mais também como cidadãos conscientes.Na edição #8 mesmo foi a prova real que isso é possível,um time e tanto do underground.


O Fanzinada que se realizou em 29 de março desse ano (2011) que comemorou o dia mundial do zine foi um marco na cultura alternativa. O que te levou a ter essa iniciativa e como foi o evento?

 Foi realmente comovente para mim!Há tempos venho tentando reunir o pessoal, mais a incompatibilidade de datas,locais e outras coisas sempre adiava este encontro.
Sempre senti a necessidade de reunir não só os fanzineiros(as)mais artistas no geral que estão por aí fazendo seus trabalhos e não tem muito espaço para divulgarem também, e quando começamos a nos mobilizar e vi que estava começando a dar certo senti um frio na barriga!Era um sonho muito antigo, devo agradecer muito aos meus amigos e parceiros que abraçaram a idéia, a Olga e o pessoal do Gambalaia por apoiarem.O evento reuniu muita gente fera,todo mundo junto somando multiplicando.Foi a prova que quando se quer algo é possível.
Reunimos poetas, grafiteiros, cineastas, atores, desenhistas, cartonistas entre outros artistas e claro muito fanzineiros(as).
O evento rendeu e fortaleceu novas e fortes amizades, e também novos projetos e convites para participar com a Fanzinada em vários locais do Brasil e também fora. E claro comemorar essa data pela primeira vez por aqui foi histórico!


Fanzine é um tipo de revista que existe desde 1929 não aliado as grandes mídias. Por que ainda muitas pessoas não conhecem esse tipo de trabalho?

 sinceramente não sei te responder o que acontece.Hoje em dia até entendo que a nova geração já nasceu com a internet e suas ferramentas, também muita gente conhece fanzine com outros nomes:como jornal, revista, folhetim etc...
E também temos que levar em conta que no nosso país as pessoas ainda lêem muito pouco, e o acesso a informação ainda é impreciso.

O documentário  Fanzineiros do Século Passado produzido por Marcio Sno, que inclusive você participa, mostra a força que está o zine hoje no país com esses trabalhos de lembrança e divulgação  e a importância que ele teve no Brasil. Nos fale dessa película e como era possível divulgar essas revistas antes do advento da internet?

 Realmente o documentário do Márcio Sno já é uma referencia nacional para todos nós que fazemos fanzines.É emocionante assistir todos aqueles depoimentos, o doc veio consolidar o revival dos zines.eu sempre fui muito a shows, eventos literários, e alí era distribuído para pesoas que gostavam e muitos eram leitores assíduos e também pelas cartas que era vital para nossa comunicação e também era muito prazeroso.Fiz muitos amigos e trocavamos muitas cartas, idéias, presentes era um intercâmbio que possibilitava você ter acesso ao que estava acontecendo,informações a saber por exemplo o que acontecia no RJ,MG,Brasília,Recife,Argentina,Europa... tenho amigos que se tornaram grandes amigos até hoje.Tb possibilitava as ações aconteceram.
Eu mesma organizei vários eventos com shows, poetas, exposições,zines entre outras coisas através de cartas e horas no orelhão(com direito a saco de fichas)e gente olhando feio na fila (rs).
 Existe competição e intrigas no meio alternativo?

 Eu pessoalmente tive poucos problemas nessa longa jornada,há muito tempo atrás o que acontecia era muitas pessoas serem muito radicais e não entenderem que o fato de você por exemplo gostar e se identificar com um estilo de música, não devia se misturar com outros e algumas desavenças foram por isso,por bobeira, mais eram umas discussões intensas tb!Mesmo pq o fanzine é muito livre e você não se prende muito a isso quando faz fanzines.

Acredita no fim do livro impresso?

 Não. O prazer de se ler um livro, sentí-lo,carregá-lo é indiscutível,acredito que as pessoas até comecem a ler mais os e-books como complemento, mais não deixem de ler, de comprarem 
seus livros.

Qual o por que de produzir arte?

 Paixão,necessidade, conhecimento, liberdade, válvula de sobrevivência.

Que retorno o fanzine te dá?

Um retorno que como sempre brinco com as pessoas mais próximas, é algo que mastercard não paga!É muito legal este vinculo que você cria com as pessoas, o reconhecimento e não estou falando em dinheiro, são valores reais, uma troca de energia, satisfação, carinho e amizade das pessoas que você vai conhecendo. Eu posso dizer que evolui muito como pessoa depois que conheci e comecei a fazer fanzines. Uma artista engajada e intensa em suas produções alternativas de muito conteúdo e força. 


Você está pretendendo levar pra Goiânia o Fanzinada. Como será esse novo evento? O negócio é rodar o país?

 Puxa!Já estamos articulando isso e creio que irá dar certo né Diego?É bom a galera de Goiânia ir se preparando, que estamos chegando pra zinar tudo!Estamos analisando algumas possibidades, mas vem muita coisa boa por ai hein! Sim, já surgiram alguns convites para alguns lugares, o Rogério, (Oficinativa) por exemplo, participou de uma ocupação em (Piracicaba-sp),a idéia é circular mesmo,não só aqui no Brasil como na América latina também.
Também estamos articulando um evento que promete render muitos frutos e reunir a galera do Brasil e América Latina Num espaço virtuoso:a Fanzinoteca Mutação do grande Law Tissot, já temos apoio da Ugrapress, alguns zineiros(as) já estão se preparando para o evento vamos torcer para dar certo.




Qual a sua grande imprudência?

Sou um ser humano como todo mundo,tenho minhas imprudências,nada exagerado.

Talvez minha maior imprudência seja viver a vida como eu quero, sou aquariana convicta. Gosto de liberdade e pago um preço grande por isso, atormenta e assusta um pouco as pessoas. Sou uma pessoa deteminada, sei o que quero e sei meus limites...
Sou um ser humano como todo mundo,tenho minhas imprudências,nada exagerado.
Até a Fanzinada-Goiania!!!
Thina Curtis
Spellworkfanzine.blogspot.com

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ENTREVISTANDO SOLANGE VENTURI


(Por Diego EL Khouri)





Solange Venturi, carioca, "artista plástica. Formação: Parque Lage. Professores: João Magalhães e Nelson Leirner. Exposições: "Mão Dupla", MAC de Rosário - Argentina; "Projéteis Contemporâneos" - FUNARTE - Rio de Janeiro; 8.Salão Nacional Victor Meireles (SC); 8.Salão da Bahia; "Projeto Castelinho", Castelinho do Flamengo; "ZOOM", MAC de Campinas; Salão de Goiás; "O Ovo", curadoria Nelson Leirner, Parque Laje. Premiada no LVI Salão Paranaense - 
Curitiba PR".







Uma das propostas de sua arte é trabalhar  com os objetos já  construídos e não instantâneos. A idéia de movimento permeia boa parte de sua obra. Uma influência clara do trabalho fotográfico de Muybridge. Além da idéia de movimento, da repetição, o que mais sustenta sua arte?


A minha arte recebe influência de todos os lados, vem de dentro, vem de fora. Copio, invento, perverto. Não persigo unidade nem coerência, faço o que me dá na cabeça


A fotografia e a pintura são duas artes que por vezes se estranham. Uma fronteira difícil de romper, porém a todo momento você faz essas interferências.  Desenho com fotografia, pintura e fotografia, etc. Como trabalhar com fronteiras tão diferentes?

Na minha fotografia tem uma fase em que copio os modelos da História da Arte, criando uma tensão nas imagens clássicas, fazendo algumas interferências externas, mas procurando manter as cores da pintura, as poses. Isso se consegue com a fotografia. Na verdade, aquela primeira pintura foi cópia de um modelo vivo, e a fotografia é a cópia dessa cópia. Então, as  fronteiras acabam se  esbarrando, já que tudo é cópia e o original tá morto. Eu misturo tudo, ligado pelo mesmo fio condutor.



Nos fale da obra que fez você levar o prêmio no LVI Salão 
no Paranaense.

Ah essa aí, tenho uma certa dificuldade em falar dela. É um trabalho muito abstrato embora  o objeto, o boneco, seja figurativo. É um trabalho que fala do feminino, mas não só. É uma série onde o personagem (boneco) vai colocando as entranhas para fora enquanto uma fenda cada vez maior vai  se abrindo à sua frente. Fala do esvaziamento, do buraco  que todos nós  algum dia entramos ou entraremos, é inevitável. Fala também do próprio ato da criação em que você vai botando tudo prá fora e no final fica um vazio até começar tudo de novo. Viu? Acabei falando muito...


Você diz que  durante um bom tempo na EAV (Escola de Artes Visuais do Parque Lage)  foi uma  ouvinte constante  das palestras ministradas por Paulo Sérgio Duarte, Fernando Cocchiaralle, Ana Bella Geiger e Charles Watson. De que forma eles influenciaram sua arte?
 
Como eu disse mais acima, a influência vem de todos os lados. Então, receber informações também é  super importante pra ajudar a entender e a formar o discurso, mas na hora da criação  o que conta é o embate   de você com você mesmo, com a obra que tá sendo parida. E aí ninguém te salva... Não tem filosofia, não tem história da arte.
 
Há  uma discussão atual sobre o que é arte boa e ruim. Uns apontam a arte como função, outros como entretenimento. Você fica de qual lado? Há outros caminhos além desses?

Pra mim a arte não tem finalidade nenhuma, é um delírio do artista que precisa colocar pra fora suas ansiedades criativas. Primeiro faço pra mim, depois  é que sinto necessidade de mostrar ao outro. Se você quiser  muito atribuir um sentido, poderia te dizer que  a função da arte é fazer pensar. E aí, arte- entretenimento tá fora. Um vídeo do Bill Viola, por exemplo, mais incomoda do que diverte . Sou a favor da arte que causa desconforto, o que pouco se vê hoje em dia onde  tudo tá pasteurizado e politicamente correto. Vou a uma  coletiva  de arte contemporânea e raramente saio impressionada .É  tudo dejà vu, o discurso tenta substituir o trabalho em nome do conceito. Não que eu seja contra trabalhos conceituais . O Duchamp, mestre maior, pouca visualidade tinha em seus trabalhos. O que tem um urinol de ¨visual¨? Mas a idéia era genial. Ou você tem uma idéia genial que vira um trabalho ou então parte para um trabalho orgânico, visceral. O que fica no meio do caminho é uma merda.


O cabelo e o pêlo estão  presentes em sua arte quase sempre. Uma idéia explicita do erotismo, aquele erotismo às avessas, estranho e intenso. O que pretende com isso?

Não sei  bem o que pretendo. Você falou bem  quando disse erotismo às avessas, um  curador falou em erótico-não erótico, em buraco do corpo. Gostei dessas expressões. Na  verdade, o pelo é só mais um elemento, um material que uso. Acho que a questão presente no meu trabalho ta ligada ao corpo, identidade, sexo e morte, entre outras. Eu tenho outros trabalhos onde não tem pelos e são feitos com carimbos sobre papel e desenhos. Também já fiz muitas pinturas enormes,a maioria se decompôs, mofou. Mas o  corpo e suas questões  está no centro de tudo .  
 
Como você vê essa geração sem utopias?

Os utópicos são muito ingênuos. Essa geração é mais safa. Eu mesma fui muito boba e acho que ainda sou. Os meus sobrinhos, por exemplo, na faixa dos 14, 15, 22, são super espertos, sabem de tudo. São crias da Internet, recebem informações de todos os lados e não acho isso ruim, não. Acho que o  melhor tempo vai ser sempre esse em que estamos vivendo. Não sou saudosista não. Se você tem sede, vai buscar na fonte. Seja em qualquer geração, tem que  fazer suas escolhas. Tem espaço pros sonhadores e também  pros suicidas...


Praticamente todas as capas dos CDs do músico underground Rogério Skylab (seu marido) foram feitas por você. Falar de Skylab e não falar dessas capas é quase impossível. Como foi a produção dessas capas, desde a escolha do tema até a  forma de utilizá-las ?

 
Eu não escolhi nada, nem fiz os trabalhos pensando nas capas dele. Com exceção do Skylab 5 e 6. Eu fazia meu trabalho e ele sempre acompanhando tudo, acabava escolhendo algum para a capa dos seus cds. Simples assim. Quanto aos 5 e 6, as fotos foram feitas, especialmente, para aquele fim. O tema do nosso trabalho tem afinidade, daí  a escolha das capas, eu acho.

O que te motiva a criar?

Uma pulsão interna  nos leva a criar e o racional organiza isso dando o nome de arte. Senão seria só loucura.
  
Ainda vivemos sobre o signo da contracultura?

Não. Não acredito em  contracultura, malditos, underground. Hoje é cada um por si e Deus contra todos. Vivemos sob o signo do bizarro.

 Como deseja morrer? 


Abraçada ao Rogério.

sábado, 27 de agosto de 2011

ULISSES AESSE - O JORNALISMO VIVO


(Por Diego EL Khouri)


A poesia se encontra viva e submersa na alma e na vida desse grande  artista contemporâneo. A centelha da luz divina que cuspiu em seu ser toda força que a palavra necessita: intensa e cheia de barulho. Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Ulisses Aesse já agregou em sua jornada infinitas existências. Além de ter sido um dos fundadores do jornal-zine da UFG, o  Rola Bosta, formou ainda no anos 80 a banda punk Exame de Fezes que no início contava com a participação do fotógrafo Zuhair Mohamad e o artista plástico Edney Antunes. Ainda na década de oitenta assumiu a editoria do Jornal Diário da Manhã além de ser presidente da ONG Caminho (Way) em prol do meio ambiente. Conhecedor da essência diáfana da poesia, esse demônio (ou anjo) da palavra me concedeu uma entrevista que posto aqui nesse blog:

Você,  que se encontra  no Diário da Manhã já há um bom tempo, de que forma
vê o jornalismo?
 
O jornalismo é um sacerdócio. Uma devoção. Fazê-lo é acreditar na
verdade, na interpretação sem vícios, sem erros. Faço um jornalismo
que seja verdade. Que transpire a verdade. Não faço jornalismo para
manipular, para pressionar, para intimidar. Não acredito no jornalismo
como jogo, mas como uma leitura dos fatos. Entendo, também, que
jornalismo é indústria, é produto. Por isso, passível de erros. Erros
comuns ao mercado. Logicamente que não há jornalismo, como conceito,
imparcial, puro. Jornalismo, como atividade humana, é conflitante,
espelha a própria sociedade. É preciso encontrar uma fórmula para que
se faça um jornalismo respeitável e comprometido com os que constroem.
Jornalismo é construção do verídico. Distorcê-lo é comprometer a sua
verdadeira essência.
 
 
A massificação da mídia, o poder dominando as comunicações, a luta para
ignorantizar o povo e o ensino real sendo caçado nas escolas, é verdade
triste que impera a sociedade. De que forma então  fazer ainda um jornalismo
sem se corromper? É uma espécie de heroísmo?
 
Podemos fazer um jornalismo transparente, sem dissimulações. Para
isso, é preciso que a sociedade conheça quem está por trás da câmara,
do microfone, do computador. É preciso mostrar o coração do
profissional, abrir sua consciência para que seu público saiba que não
está sendo manipulado. Manipula exige apenas perspicácia. Quem
manipula tem intenções paroquiais, pessoais. Isso é ruim. O bom
profissional põe seu peito para fora e não teme a exposição de idéias.
Jornalista deve expor os fatos, se possível, interpretá-lo dentro da
ótica de quem o lê sabe a sua opinião. Não podemos deixar que o
jornalismo seja apenas um fruto da massificação, da chamada indústria
cultural. O poder que domina os meios de comunicação, também, domina
as instituições como as academias, as igrejas, as entidades de
classes. Só se corrompe quem quer se vender. E se vende, às vezes, até
por um 'muito obrigado'.
 
 
Tua poesia é uma lapidação cuidadosa da linguagem. Porém há nela uma pegada
envolvendo o êxtase e o delírio poético. De que forma surgiu seu primeiro
livro?
 
A poesia é um fluxo do inconsciente. Uma turbulência que nos invade
naquele momento. Faço poesia num jorro de ideias, onde o vício está em
cada verbo. Vejo o verbo se derramar à minha frente, como cachoeiras
de palavras. A poesia, em si, não tem explicação. É um jorro de
conteúdo que você vai acumulando com o tempo e com a experiência da
emoção, do exercício da retórica, vem como se fosse drops de palavras,
de sentenças. Trabalho o delírio, o êxtase como tempero para que as
palavras não sejam duras como os discursos dos políticos, nem com as
sentenças dos tribunais. Nelas, nas poesias, me ponho de joelhos, com
os olhos voltados para Deus. Um exercício de purificação da alma. Há,
em cada verso, um sorriso desesperado. Um soluço de quem ama. E um
aceno para quem vai.
 
Um poeta nasce poeta ou se torna poeta pelo não enquadramento nas normas
estabelecidas pela sociedade?
 
O poeta nasce, se faz, se educa. É preciso, antes de tudo, gostar da
poesia. Amá-la como se ama um filho, os pais, o chão onde nasceu. Não
se pode dizer que o poeta é algo de outro mundo, alienígena. O poeta
hoje, nas suas várias linguagens, observa a tudo, atento, como se seus
olhos estivessem ali, em cada momento, escrutinando os ossos, o
invisível. Um poeta tem idade, religião, profissão, amor, ódio. Um
poeta tem RG, CPF e razão. Logo, o poeta está aí, ao seu lado,
sentado, como se fosse um cidadão. E é. Um cidadão que vê, ao longe,
os sinos nas conchas; o mar, virado de cabeça para baixo, como se os
peixes fossem estrelas. Um poeta é assim, se faz assim: sempre sem
fim.
 
 
De que forma você vê a arte hoje?
 
Vejo a arte como algo comercial, vendáve, venal. Uma arte perdida, mas
necessária. A arte perdeu seu referencial de construção, de educação,
para virar discurso de poder, de grupos que se revezam nas riquezas. É
preciso desnudá-la, colocá-la com a 'vergonha de fora'. Fazer com que
passemos a respeitá-la pela sua castidade, não pelo seu valor. Não há
algo mais magnífico do que as pinturas 'pintadas' por Deus no céu. Na
aurora, no pôr do Sol. No nascer da Lua. Quero crer que tudo, num dia,
vai mudar. Mesmo tendo a certeza que não.
 
Qual sua opinião sobre a legalização da maconha?
 
À princípio sou pela discussão, dissecação completa do tema. Não há
como ter um discurso já formulado, já embalado. A maconha, pelo que
conheço, não traz nada que prejudique o caráter de uma pessoa. Ainda à
princípio sou pela sua descriminalização.
 
 
Você como jornalista como vê a política atual?


Um tanto quando conturbada. O Brasil valoriza muita as intrigas
políticas. A imprensa principalmente. Sou favorável a deixar os
políticos em paz e apenas denunciar as suas corrupções ou atos
decentes. E não vê-los como Midas. A política no Brasil é feita por
uma casta que se locupleta enquanto a maioria do povo se lasca. É
preciso mostrar a indigência frente a esta realidade. Inclusive, com a
participação nas redes sociais, denunciando os verdadeiros picaretas e
mercenários que temos. Aliás, talvez, faltaria dedo para teclar seus
nomes nas redes sociais.
 
 
Nos fale sobre seu segundo livro que está pra sair, o Amarás a quem?
 
 
É, como o primeiro, uma ode ao amor e à razão. Nada que distancie o
amor do ódio, o sim do não. O livro nada mais é que um discurso pela
vida, pelos sentimentos que nos movem nos passos da vida. Amaras
quem?! é uma pergunta que faço para o espectador, para que ele se
sintonize e reflita: é possível amar neste tempo de espantalhos? Quem
ler o livro abrirá o espírito. Uma fenda há de fazê-lo pensar sobre a
razão e o amor.
 
 
Jornalista, poeta e músico. fale sobre seus projetos musicais.



Tenho mais de 25 anos de estrada musical. Tudo começou em um barracão,
alugado, na Avenida Contorno, no Centro. Ali nasceu a banda Exame de
Fezes. Depois a Maqna Rock. Logo após, outras bandas Sofá de Carne, ET
de Vagina, Picolé de Nervo, Los Hervalifes e outros projetos que estão
em andamento. Tenho a música no sangue como elemento de contestação.
Como algo que possa protestar contra as injustiças. Nosso casting é
voltado para o punk. Alguns projetos serão executados brevemente como
o retorno da Maqna Rock, Eu, Welliton Carlos e Carlos Brandão estamos
discutindo a sua volta, um espaço para a música, para o rock, o blues,
o jazz. Para tudo.
 
 
Uma poesia para dar um ponto final triunfal nessa entrevista.
 
 
 
Dobra o corpo de si e do
sino ao corpo do homem
 
(Nas vísceras padece um homem pegajoso)
 
Dobra o corpo do sino neste imenso
maundo
imerso no caos
e te prendes ao amor
fecundo que fenece
nestas névoas-flores de espinhos.
 
Amarás a quem?
 
Em sinônimo de sigo mesmos
ou no fundo andrajoso dos outros?
 
Fenece nos olhos imersos
— ilhados em lágrimas —
feito céu maravilhado
ou de um corpo em cio.
 
(Descobre a ti mesmo)
 
As horas em cristais
estigmatizam com doçura
as arestas do tempo
e no bate-bate de cores
amarás como ama a ti mesmo
no campo lindo e oblíquo de
teus seios.
 
Amarás a quem?
 
Em sinônimo de sigo mesmo
ou no campanário que destila
a vida de quem te ama?
 
(Fenece como pedra imolada
nos abismos dos corpos)
 
Amarás feito verdura no verão
à espera do sol que a frutifique
e a maravilhe
— em cachos —
como peixes que carregam
doçuras nas barbatanas de (amar-te)!
 
Amarás a quem?
 
Neste domínio de poucos,
concentrando a ilusão
de ser no tempo
rumo ao vento
com opacos seres nas mãos.
 
No corpo encontrarás fagulhas
que submergirão e ascenderão
em brasa o calor do teu amar-te.
Lubrificarás o ódio que tens em ti
e só em ti frutificarás.
 
Tu te prendes ao amor amado?
 
Nas flores fenecem os espinhos.
 
Amarás a quem?
 
(Nas vísceras, tortuoso,
padece um poeta em fiapos,
e o céu e o mar destinam seu ser)
 
Ameaça-te a não ouvir
o sino, também,
é grande o desgosto pelos
dings-dongs que acolhem
em nosso peito
e no revérbero do sol a pino,
todo jovem
padece a sino.
 
E no caminho simples prende-te
ao tempo trazendo no mesmo
a estranheza das almas
e aos elos que traduzem
em dois versos antigos:
 
Amarás a quem neste mundo
imerson em caos e abismo?
 
Dobra o corpo de ti e do sino
ao corpo do homem e alegra-te
em ofertar-te,
soltando risos
livres pelos lábios.
 
E pergunta a ti mesmo:
A quem amarás?
 
Ave, geral.
De bando e raça (a vida roça
a vida de amar-te)
 
No fundo do reflexo de (olhar-te)
como quem olha nas vísceras
um homem em andrajos
a amofinar-se em desejos
 
Dobra o corpo menino
ao amor ubíquo
e sibile a todos e a ti mesmo:
Amarás a quem
neste mundo de abismos?
 
E por trás do homem
o silêncio caminha
sem si e sem pernas
para (amar-te),
sem tempo e sem ódio,
o lado do silêncio de agora,
o lado do amor de amanhã.
 
Amarás a quem,
neste tempo de espantalhos?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

RADIOCARBONO - OS ENTEADOS DO SAMBA


(Por Diego EL Khouri)

Num mergulho obsessivo continuo no rasto da cultura alternativa. Dessa vez entrevistei a banda goiana Radiocarbono, que lançou há poucos meses o cd Enteado do Samba. Uma banda com uma pegada forte calcada nas misturas, junção contínua que nada mais é que o signo da arte contemporânea.




http://www.myspace.com/radiocarbono

Por que Radiocarbono?
Henrix Ramos responde:


O nome vem justamente dessa brincadeira de misturar música com a técnica de mensuração de idade orgânica. Explico. Como as referências dos integrantes da banda são muitas e variadas, pensamos num nome que remetesse a essa pluralidade musical, e que ao mesmo tempo mostrasse essa questão filosófica calcada no uso de vários estilos para a criação de outro. Não temos a pretensão de afirmar que nossa música é original e única, mas podemos dizer que buscamos transformar nossas influencias em algo que caminhe para isso.
 
A música contemporânea não está ligada mais na pureza dos estilos. As junções são válidas. Há porém  um sentindo além de musical misturar o rock com o samba, dois estilos não populares na cidade em que vivem conhecida como terra do sertanejo?

Douglas Mcarthur responde:

Acho que além do musical podemos citar o lance cultural que envolve os estilos que são referência pra banda. Nosso trabalho tem essa mistura cultural no dna. Na verdade, acho que somos uma bacia de misturas indefinidas...hehehe...
 
A poesia permeia todas as músicas da banda.  Quais as suas referências poéticas e musicais?

Pinguim Barreira Responde:

 Referências tenho muitas, mas as letras desse disco foram criadas com teor alcoolico elevado de Kafka, Doors, Metallica, RHCP, pitadas de Ariano Suassuna, Nação zumbi, Bezerra da Silva, um pouco de Luís Fernando Veríssimo com pequenas doses de frevo, coco, maracatu e samba de raiz.
Nossas letras falam dos dramas e alegrias do cotidiano. É uma espécie de poesia concreta sem muito valor retórico. Quando escrevo, simplesmente penso no desenrolar da cena daquilo que estou passando pro papel. É um processo que não consigo explicar muito. Aliás, é mais fácil fazer do que explicar.


Hoje no Brasil existem muitos espaços para uma banda tocar?

Danilo Almeida responde:

 Acho que sim. Hoje os coletivos estão muito mais integrados e engajados em permitir a circulação das bandas. O toque no brasil por exemplo, abriu muitas oportunidades pra gente. É lógico que não é só criar o perfil lá e esperar contato. É preciso correr atrás também, porque nada vem sem muito trampo, pode ter certeza.

Qual a relação da Radiocarbono com outras bandas alternativas?

Taiguara Franco resoponde:

Nossa relação é muito boa, nunca tivemos problemas rsrsrs.
Falando sério, temos muito respeito e admiração por várias bandas (muitas mesmo, não dá pra citar e correr o risco de deixar alguém muito bom de fora). Entretanto, temos mais afinidade com a galera do Chimpanzes de Gaveta e do Umbando, por sermos mais amigos e tal.
   
Numa entrevista que fiz com o poeta Robisson Sete, da extinta banda mineira chamada Juanna Barbera, ele disse que é complicado tocar numa banda, pois banda de rock é casamento sem sexo. Como então se dá o convívio com os membros da banda?

Douglas responde:

 A comparação é boa hein..rsrsrs...Rapaz, nossa principal intenção sempre foi se divertir fazendo o som que gostamos. Antes de montarmos o projeto, já éramos todos brothers das antigas, estudamos juntos, tocamos em bandas diferentes, dividimos palcos. Nos conhecemos há mais de 10 anos e, em toda e qualquer relação saudável há discussões, opniões diferentes e coisas desse tipo....Mas administramos sempre da melhor maneira. 

O cd Enteado do Samba que gravaram tem alguma relação com o  cd Estudando o samba do Tom Zé? Nos fale desse trabalho.

Pinguim responde:

Em primeira instância, não fizemos isso propositalmente. Mas os moldes para a mistura que acabamos por fazer foram lançadas ali, sob a batuta escarlate e debochada do Tom.
O disco na verdade, é fruto de 3 anos de ralação. Correria pra descolar a grana. Correria pra descolar contatos. Correria pra descolar shows. Putz, a correria foi pesada. Mas no final valeu muito a pena, porque a gente gostou muito do resultado. Achamos que ficou muito a nossa “cara”. Todos os timbres, todos os efeitos, todas as palavras... tudo foi pensado pra ficar do jeito que a gente sempre sonhou pro primeiro disco.
 
O que cada um da banda gosta de escutar?

Danilo responde:

Ah muito variado cara. Nossa escola é o Rock'n Roll, é fato, mas ouvimos muita coisa desde MPB, Samba e paradas regionais até o indie, progress, dub, metal, punk, hard core... tem muito som bom espalhado por essas vertentes...
 
Quais os planos futuros?

Henrix responde:

Agora estamos engajados em circular com o disco, já fizemos goiás e minas, em agosto tem Palmas no Tocantins. Enfim, estamos nos articulando para rodar e mostrar nosso trabalho. Mas sem deixar de lado as composições novas (e tem muitas viu...). Já temos as músicas do próximo disco praticamente definidas. O plano é iniciar o processo de gravação ainda esse ano.  
 
O que acham dessa onde de modismos como emo e restart que massificam a mídia fechando espaço pra outros artistas?

Douglas responde:

Cara, é uma onda adolescente que logo vai passar, eu espero...rsrsrs...Não curto o estilo, as músicas, as bandas....parece um um sertanejo só que mais colorido, algumas guitarras a mais e cabelo propositalmente rebelde....Mas acho que independente do estilo, tudo que está massificado pela mídia soa igual, é tudo muito parecido...Se quiser ouvir coisa realmente boa e diferente, tem que dar uma passeada pelo cenário underground. 

Pra terminar, qual o bar mais próximo?

Taiguara responde:

 rsrsrs...Não bebemos mais, depois de amanhã fará dois dias.....