sábado, 23 de junho de 2018

MAIS UM PAPO COM O ARTIVISTA FABIO DA SILVA BARBOSA

Por:  Diego El Khouri 

Tive a honra de conhecer esse maluco  em 2009 através do zine O Berro que fazia em parceria com  Winter Bastos e Alexandre Mendes (há  8 anos ele produz o zine Reboco Caído na qual na primeira edição saiu uma entrevista comigo). O grande poeta Glauco Mattoso que me apresentou esse  puta trabalho. Depois em 2010 nos conhecemos pessoalmente quando  ele  morava em Niterói (RJ). Que noites de boêmia e trocas de experiências e trabalhos!  Hoje  Fabio  mora no Rio Grande do Sul.  O entrevistei, para esse blog,  três vezes (essa é a quarta).  Sempre sai coisas  incríveis  desse papo. Os convido a mais essa viagem no universo lúcido e emancipador  de suas palavras:

* Para viajar em   seu universo criativo:





1) Literatura

Nome pomposo. Certas palavras vão sendo utilizadas por grupos que a tornam desagradáveis. Sou contra toda forma de elite, seja financeira ou intelectual. Estas elites são falsas. Privilégios cuidadosamente cultuados para manter as coisas como estão. E, sinceramente, não gosto das coisas como estão. Para você ter uma ideia do que estou falando, dia desses fui convidado para um tal seminário. Falei em uma mesa junto com uns tais poetas. O primeiro que falou cagou tanta vaidade, encaretou tanto a poesia, que ao chegar minha vez me identifiquei como escrevedor e minha produção como qualquer coisa menos literatura. A gente acaba querendo se afastar destas palavras para não ser confundido com esses caras cheios de frufru que enfraquecem a ideia. Produzem algo vazio de significado. O que faço não é a mesma coisa que ele faz, entende? É outro processo. Tô mais pra autista que para artista. Agora, também é aquilo: Isso que pode acabar me fechando em mim, acaba sendo mais abrangente que muita coisa que se vê por aí. Nesse momento, muito artista passa a ter um autismo em grau mais elevado que o meu. Essa linquagem figurada de chamar o ato de se fechar como autismo nem é justa para os portadores da doença, pois, quando vamos analisar o quanto as cabeças que se julgam pensante estão fechadas, vemos que eles estão mais trancados em si do que os enfermos. Tudo gente hipócrita, perdida na umbigolândia. Não podemos confundir o processo de autoconhecimento com o processo egoísta que enfeia tudo. Em tempos como os nossos, onde o fascismo tenta botar a cabeça para fora do bueiro, por exemplo, onde estão os artistas? Onde estão os tais senhores de percepção apurada, por exemplo, se posicionando contra a direita imunda? Muito pelo contrário. Você encontra os caras covardemente não querendo falar de política. Onde estão os intelectuais enquanto imigrantes são postos em gaiolas nos EUA? Onde estão as tais cabeças pensantes enquanto roubam os direitos dos trabalhadores e a corrupção se solidifica a luz do dia? Onde estão os artistas enquanto ditaduras se formam a olhos vistos? Onde estão estas pessoas que se julgam tão importantes? Eu sei onde estou e sei o espaço que minha produção ocupa. Quem acompanha meu trampo também sabe. Tenho mais dois livros prontos e tô na correria para conseguir lançar ainda esse ano. São duas pequenas histórias que refletem muito do nosso mundo. Uma é uma saga urbana, sobre um cara bem ferrado. Outra é sobre um futuro distópico que tem muito a ver com nosso presente. Um dos muitos caminhos que a triste humanidade pode seguir. Eu me aventurando na área da ficção científica. Mas o caminho é sempre difícil para os que não se enquadram, para os que nadam contra a corrente e buscam não fazer parte das panelinhas.


2) Por que escrever?

Cada um com suas motivações e por vezes existem vários motivos em cada um. Eu escrevo por necessidade interna, por gostar dessa ferramenta... Enfim... Por que não escrever?


3)  Zines.

Gosto bastante destes meios de comunicação. Tem um grande cara, o Law Tissot, que certa vez me disse que gostava da idéia de ver os zines como garrafas lançadas ao mar. Também gostei bastante dessa idéia. Produzo o zine Reboco Caído há bastante tempo e já produzi outros pelo caminho. Existem ótimos zines por aí. Acho que é um importante meio de comunicação. Fácil, rápido e barato. É algo tão livre que existe em vários formatos e para diversos fins. Algo que cabe em várias definições.


4) Poesia.

Vide resposta sobre literatura.


5) Cinema.

Gosto bastante. O cinema nacional, para mim, é o melhor do mundo. Embora já faça algum tempo que esteja perdendo muito de sua essência, ainda existem caras na luta pelo verdadeiro cinema brasileiro. E isso não tem nada a ver com o doentio ufanismo patriótico. Quando falo da grande qualidade do nosso cinema, analiso realmente ingredientes muito peculiares dele. O protagonista de um filme nacional, por exemplo, não precisa ter super poderes, vir de outro planeta, ou possuir armas de raio laser. Ele é o porteiro de um prédio, o padeiro, o operário. Poderia citar aqui vários clássicos do nosso cinema. Filmes que mostram as coisas de uma ótica diferenciada, que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo. Ver filmes como o Homem que virou suco, Lúcio Flávio, Pixote, O Rei do Rio, Pra frente Brasil, By By Brasil, Eles não usam Black-tie, Uma Onda no Ar e tantos outros, é um verdadeiro presente. E vir ao mundo é não perder a viagem. Chega a ser difícil buscar exemplos. A gente se sente injusto não cotando vários. Para citar tanta coisa boa precisaria de fazer uma lista enorme. Mas pensa em enorme. Tem muito documentário bom também. O excelente Vladmir Seixas tá com trabalho novo aí na quebrada. Fico triste quando vejo o pessoal jogando dinheiro fora querendo fazer filme estilo norte americano, seguindo o esvaziamento de sentido e significado que representa Hollywood. Não, que não existam bons filmes vindo de outros lugares. Claro que tem. Até dos EUA vem coisa boa. Mas realmente nunca vi nada como o cinema nacional. É algo lindamente combativo e com o que o espectador se identifica de primeira. Aquela coisa que você olha e vê logo que tem a ver, sabe. É algo até difícil explicar, de uma riqueza vastíssima.


6) Drogas.

Nome genérico para rotular grande variedade de substâncias. Existem as lícitas, as ilícitas, as que as pessoas fingem não ser drogas... Existem as ancestrais, que estão há muito tempo com a gente e fazem parte da história da humanidade. Plantas de poder são utilizadas por muitas comunidades antigas e vistas como fontes de conhecimento e saúde há gerações. Algumas destas plantas são utilizadas também em cultos religiosos. Existem também as que enriquecem a indústria farmacêutica, vendidas em drogarias. Outro dia passei por uma destas lojas onde tinha uma grande placa na porta anunciando promoção de remédio. Imagina. Esse meu livro que fala sobre um futuro distópico também discute isso, entre outras coisas. As drogas agem em nosso organismo de acordo com diversos fatores. Existem os fatores culturais, psicológicos, as pré disposições e até mesmo fatores físicos. Alguns conseguem lidar bem com certos tipos de drogas, enquanto outros se tornam verdadeiros escravos zumbis. O maior problema das drogas ilícitas hoje é o modo como são tratadas na maioria dos lugares. A ótica punitivista e preconceituosa é sempre prejudicial ao diálogo e ao conhecimento. O problema das lícitas é seu uso empresarial. Sempre que algo vira fonte de lucro e produção em escala industrial começam os problemas relativos a qualidade e veracidade das informações sobre. A cerveja, por exemplo. Droga largamente consumida e socialmente aceita, mas que hoje conta com o milho transgênico em sua composição em fábricas que produzem em grande escala.


7) Uma frase.

Não pode haver liberdade de reprimir ou tolerância com a intolerância. (FSB – Eu mesmo)


8- Militarização

Atraso

9- Reboco Caído

Vou utilizar uma definição que utilizei para ele no número um e que até hoje cai bem, por mais que tenham passado várias fases durante este tempo de caminhada: zine xerocado, dobrado e grampeado. Um lugar para tudo que vier na cabeça e passar pelo campo dos sentidos. Um ambiente plural, a favor da diversidade.


10- Um poema

Escolher um é sempre difícil, mas vou tentar. Restos Mortais Por Fabio da Silva Barbosa o homem de bronze deitado na calçada encostado na parede no meio da sujeira não desperta interesse ou mera curiosidade dos que passam apressados restos desprezados braços dobrados pernas encolhidas cada parte retorcida em uma tensão pacífica a chuva começa a cair molhando o cadáver que respira ofegante em um bailar de pele e osso







quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A ARTE INTENSA DO ARTISTA VISUAL JOÃO MARQUES

Por: Diego El Khouri 

Direto de Portugal,para as páginas vertiginosas desse blog,o artista João Marques. Residente de Sesimbra, uma vila portuguesa pertencente ao Distrito de Setúbal, esse grande "cientista das cores" me concedeu essa entrevista que posto aqui na íntegra:


1- Você surge como artista plástico em finais de 2009. As bases do seu trabalho são o expressionismo abstrato, o informalismo, além das influências do surrealismo e o neo impressionismo. De que forma se deu esse início nas artes e qual o papel hoje tem em sua vida o fazer artístico?

Olá.
Posso dizer que surjo nos primórdios de artista plástico em finais de 2009. Já antes escrevia alguns poemas e letras de músicas e por vezes criava uma imagem na minha cabeça sobre esse mesmo poema/letra. Foi a partir daqui que dediquei-me mais à exploração na pintura, dentro do que era possível desenhar e pintar, influenciado também pela filosofia que já lia, como Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, ou mais propriamente o Niilismo e o Existencialismo contemporâneo. As influências estilísticas na pintura foram em primeira instância o surrealismo e algum conceptualismo, obras como a “Tempestade Existencial” e o “Espantalho” abordam claramente a influência surrealista e conceptual. Lembro-me também de ter pintado um quadro como um crucifixo num terço afundado num lago (risos) o qual foi vendido pela pessoa achar “é muito bonito para o quarto da minha filha”. Mais tarde optei por experimentar algo mais abstracto e “espontâneo” em que se destacam nomes do expressionismo abstracto americano e do informalismo (tachismo) europeu. Nomes como Jackson Pollock, Emilio Vedova, Georges Mathieu, Pierre Soulages. A espontaneidade do gesto e do “dripping” substituem o desenho e permitem à posteriori criar a forma. O Neo-expressionismo como influência surge para complementar o conceito com a abstracção, devido a este mesmo ter influências do surrealismo, abstracionismo e expressionismo, de uma forma mais livre e errática, mas com significado psico-social emergente. Neste momento tento não pensar demasiado em seguir estilos artísticos pré-estabelecidos, mas sim criar o meu próprio. Sei que me situo entre o expressionismo abstracto e o informalismo com algo mais em que as influências e referências são apenas isso mesmo. O indivíduo como agente interveniente no processo criativo “é mais que a soma das partes.” Posso também acrescentar que o meu interesse e exploração na pintura é autodidacta, uma descoberta.


2-  Como anda a cena artística e cultural de Portugal e mais especificamente em Seimbra, vila portuguesa pertencente ao Distrito de Setúbal?

Em Portugal a arte é vista como um negócio, um investimento, um materialismo em que por vezes possui significado e valor metafísico. Existem vários tipos de artistas, desdes os formados em Belas Artes como alguns artistas autodidactas e outros artistas mais virados para o artesanato e artes decorativas, em que todos competem e podem cooperar pelo mesmo: Ter destaque no mercado, divulgar o seu trabalho e nome e comercializarem a sua obra.
A vila de Sesimbra é uma pequena vila piscatória, sua etnografia é mais direcionada para o artesanato da prática piscatória. Existem sim, exposições de artistas plásticos mas poderão não ter a devida atenção devido ao próprio meio cultural não valorizar de forma correcta. Setúbal por ser capital de distrito já se torna um meio mais urbanizado e eclético com serviços que permitem uma maior divulgação e valorização das artes plásticas.

3- Você diz que "viver é explorar e experimentar". Por quais materiais se utiliza para criar seus trabalhos nas artes visuais?

O suporte que utilizo habitualmente é tela ou papel, tinta acrílica e spray esmalte. Normalmente faço uso da técnica mista, o que me permite criar diversas texturas, efeitos na reacção entre os tipos de tinta, pincéis, trinchas, água… 
Na maior fase de experimentação cheguei a usar cera de velas, cimento, tinta texturada, pedras, papel colados na tela, tinta de óleo…inclusive pegar fogo (risos). 


4- Você disse em um texto que tem como meta formar em psicologia clínica, se especializar em psicopatologia e "navegar na psiquiatria". Em suas obras estão embutidas muito dos conhecimentos de psicologia nos conceitos de Percepção e Projeção. O surrealismo mesmo se embebedou nas conquistas freudianas. De que forma seu trabalho artístico perambula por tais temas?

Sim, sou capaz de ter dito algo sobre a minha formação e planos na área da psicologia. 
Vejo a arte como a expressão artística do sujeito.
A expressão dos seus afectos, conceitos e proporciona a este mesmo uma catarse, a libertação do seu conteúdo afectivo através da projecção (mecanismo de defesa psicanalítico de Freud).

Apesar da psicanálise estar ultrapassada devido às abordagens da psicologia posteriores (como a abordagem cognitivo-comportamental e a neurociência) o mecanismo da projecção é presenciado cientificamente nos sujeitos.
 A percepção é um processo psicológico que permite interpretar o mundo e a realidade externa através dos sentidos que a focam e o cérebro interpreta essas informações internamente. A psicologia da Gestalt (forma em alemão) estudou bastante o processo de Percepção o que permitiu definir que percepcionamos através de leis como: A figura fundo, semelhança, continuidade, pregnância… Para além disto, estudou-se que o ser humano quando nasce, tem a capacidade inata de percepcionar o rosto humano (imaginemos um círculo, dois pontos para os olhos, um traço vertical para o nariz e um traço horizontal para a boca). 

Durante o meu processo criativo existe esta relação entre projecção-percepção. Posso começar directamente com a espontaneidade do gesto e “action painting” e mais tarde definir as manchas de forma mais concreta e “objectiva”. A mancha de tinta poderá dar lugar a objectos, formas, sujeitos, animais… tudo conteúdo projectivo e percepcionado interna e externamente. 


Não me posso definir como discípulo de Freud, até porque estou mais direcionado pela abordagem cognitivo-comportamental e neurociência, mas podemos sim dar importância aos estudos de Freud e Jung no inicio do surrealismo e expressionismo abstracto na escrita automática, os arquétipos e todo o processo criativo de expressão entre e pelos estados da consciência.



5- livros e autores que recomenda.

Qualquer livro que permite ao sujeito expandir, abrir horizontes ao seu conhecimento, reflectir e questionar sobre si próprio e aos outros.
Desenvolvimento intelectual, e neste contexto existe a panóplia de livros de conteúdo psico-bio-social. O meio influencia a natureza do próprio artista, é aqui que se deve dar o insight.
Pessoalmente prefiro, Nietzsche, Sartre, Bruce Lee (filosofia), António Damásio, Albert Camus, Dostoievski, Fernando Pessoa e seus heterónimos, Chuck Palahniuk (Fight Club) entre outros. São excelentes referências que permitem um olhar curioso e profundo sobre a condição humana. 
De resto, livros sobre artistas e biografias são sempre bons para matar alguma curiosidade e talvez influenciar o processo criativo nas artes plásticas.


6- Você expõe seu trabalho em vários países. Como se dá o diálogo com outros artistas?

Em 2012 participei num concurso em Itália, mais propriamente Gaeta (Gaetart 2012) em que consegui ganhar o concurso. O facebook é uma excelente ferramenta para o diálogo entre artistas, instituições, associações, galerias e permite também divulgar as nossas obras através de grupos e páginas. Por sua vez permite também criar e divulgar movimentos artísticos como o caso do movimento Internacional Multicultural NEUTRAL-ISM fundado por Francesco Perilli com um representante por nação (neste momento são mais de 50 nações associadas ao movimento) o que permite criar exposições internacionais pelos elementos do movimento. O diálogo entre artistas dá-se virtualmente e se possível, pessoalmente, na troca de ideias e planeamento. 

7- As artes visuais  interagem e interferem no processo de educação de uma sociedade? Fale sobre.

Na minha opinião (sendo isto somente uma opinião), as artes visuais interagem e interferem no processo de educação de uma sociedade, mas, poderão falhar por carecer de intermediário na explicação da obra de arte em si.
Visualizo mais o uso das artes visuais como um processo de desenvolvimento criativo, permitindo uma melhor dinâmica nas áreas de pensamento, raciocínio e linguagem no sujeito que cria (artista) que por sua vez poderá explicar o seu trabalho ao público (apesar do público observador também poder interpretar a obra (seja esta vídeo, escultura ou pintura de forma pessoal e subjectiva). Sendo uma forma de expressão e narrativa, de conteúdo variado que permite informar e reflectir os sujeitos.



8- E seu trabalho no campo da literatura?

O meu trabalho no campo da literatura passa neste momento por pequenos poemas escritos aleatoriamente sem nenhum objectivo definido. Acho que posso dizer que são um escape ou uma brincadeira projectiva (risos) na criatividade. Normalmente surgem como um devaneio em versos curtos, herméticos, com metáforas em que os temas nas estrofes se misturam de forma a finalizarem um possível tema principal. Sou influenciado pela poesia pós-moderna em que citam-se autores como Fernando Pessoa, Antero de Quental, Mário Sá Carneiro, José Régio… nomes marcantes do jornal/revista portuguesa Orpheu, da segunda década de 1900.
Contudo, tendo em conta que temos sempre o mundo em crise, retornamos sempre à condição humana no cenário social: Guerra, fome, doença, vício, “loucura”,crime, morte… A negatividade.
São estes os temas que me “permitem” criar.

9-  Epitáfio.

" transgressão do informalismo e expressionismo abstracto"

10 - Fale o que quiser.

Cada artista é um indivíduo. Sendo o artista um individuo, deve então explorar ao máximo o seu potencial criativo e libertar-se das normas que o amarram. Já dizia o Einstein que a imaginação não possui limites e que a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho inicial. É necessário experimentar e errar. É este o processo de aprendizagem inato do ser humano. Nascemos providos de um sistema nervoso que é a melhor ferramenta para a nossa sobrevivência e desenvolvimento, e devemos usá-lo, exercitá-lo. A repetição e a estagnação são a morte do artista, são a morte do individuo como principal agente criador. 
Na vida já temos o meio social que transgride a nossa liberdade. É na arte e criatividade que poderemos ser totalmente livres.
O termo pintor, artista plástico são da mesma forma rótulos normativos que poderiam ser transmutados a uma só palavra genérica como: Criativo.
É normal que pessoas que pintam (sejam artistas ou não, sendo isto outro termo académico) possuírem traços de personalidade (como o traço de abertura à experiência) o que as permite explorar diversas formas de expressão como a pintura, música, desenho, escultura, culinária…
Uma pré-formação não é uma má escolha, mas quanto maior e diverso o conhecimento, mais rico e integro é o artista na sua arte. Repito, “A repetição e a estagnação são a morte do artista (…) “
A repetição e a estagnação são a morte do ser humano.
João Pedro Marques
Página facebook: www.facebook.com/jpmarts
Blog: www.jpmarts.tumblr.com

Instagram: https://www.instagram.com/jpm_arts0/


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O TRABALHO ARTÍSTICO E CULTURAL DE OMAR KHOURI

Por: Diego El Khouri 

Mais uma interessante entrevista nesse blog que visa devassar a cultura, enriquecer nosso olhar, fortalecer a cena artística e criar um painel de produção contemporânea. Nessa busca conheci o trabalho do artista Omar Khouri. Temos o mesmo sobrenome e também somos descendentes de libaneses. Segue abaixo esse bate papo.

"Nasceu em Pirajuí (SP. Brasil) em 1948. É Mestre e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, e Livre-Docente em "Teoria e Crítica da Arte", pelo IA-UNESP. Poeta, editor (Nomuque Edições), promotor de eventos, impressor e crítico ocasional de linguagens. Veiculou seus poemas em publicações coletivas, como Artéria, Zero à Esquerda, Qorpo Estranho, Muda, Caspa, Kataloki, Atlas, Errática e outras. Tem participado de inúmeras exposições de Poesia Visual, no Brasil e em outros países. Atualmente, ocupa-se de um projeto experimental de prosa, donde resultaram vários volumes, já publicados. Vive e trabalha em São Paulo, como professor."



1) Você se dedicou à pintura até os 26 anos de idade. Depois mergulhou profundamente na poesia (principalmente a dos modernistas), encaminhando enfim para uma poesia que, "em boa parte, derivava da Poesia Concreta." No encalço da palavra, a Poesia Visual ("que nos anos 70 a chamavam Intersemiótica") teve um tremendo impacto em sua vida. Nos fale desse início na poesia e como se dá o seu processo de construção literária dentro dessas linguagens e como tais "construções" te influenciam e te constroem como escritor. 

Desde a infância, dediquei-me à pintura e pensava ser esse o meu destino (ainda amo sobremaneira a pintura, sendo eu uma espécie de “rato de museu”). Porém, as coisas da poesia, na adolescência, começaram a me atrair e minhas leituras, bastante diversificadas, passaram a incluí-la e com muito relevo. Sou do Interior do Estado de São Paulo, Pirajuí, cidade que contava com escolas estaduais muito boas, e estudei sempre em escolas do Estado, onde havia altas discussões, já no Colegial, com colegas e professores – parece que tínhamos, de fato, ambição intelectual e artística, naquele meio. Tivemos grandes professores: de Desenho, Português, História, Geografia, Inglês etc. Por outro lado, eu me tornei amigo de Paulo Miranda, uma espécie de menino prodígio, uma inteligência brilhante e um talento extraordinário para a poesia, um leitor contumaz da melhor literatura produzida em Língua Portuguesa e também da produzida no mundo anglófono (seu inglês foi aperfeiçoado durante uma estada por um ano nos Estados Unidos, ainda adolescente). Aprendi muito com Paulo Miranda, como continuo a aprender. Bem, ainda no Colegial, cheguei a ler toda a obra poética de Manuel Bandeira e Oswald de Andrade e de outros modernistas, além de poesia de outros tempos. Na mesma época, tive os primeiros contatos com Fernando Pessoa, Drummond e João Cabral, além de Cassiano Ricardo, que nos parecia um poeta de ponta. Quando Paulo voltou dos EUA, em meados de 1968, veio falando com entusiasmo de um certo Ezra Pound, que logo me atraiu e em cuja obra fui adentrando um pouco depois. Ainda em Pirajuí, os primeiros toques de Poesia Concreta (o poema ‘Organismo’, na revista Invenção 5), notícias de Décio Pignatari, que lecionava em Marília. Transferi-me para São Paulo, que eu já bem conhecia, em 1970, para estudar História, na USP, onde me formei. Marcante para mim foi a leitura do Contracomunicação, do Décio Pignatari, em 1971-72. Em pouquíssimo tempo, o espanto pela teoria transformou-se em admiração pela Poesia Concreta (era praticamente impossível encontrar algum livro que trouxesse poemas do Concretismo – não havia edições comerciais daquela poesia). Descobri, na Faculdade de História, o Panaroma do Finnegans Wake, dos Campos e Joyce, por meio de um colega. Daí, as coisas foram tomando corpo. Sempre estive ligado a Pirajuí (em 47 anos de residência em São Paulo, estive mais de 600 vezes na minha cidade). Ainda em 1973, fiz meu 1º e último trabalho pictórico de fôlego: pintei as 14 estações da Via Sacra em 28 quadros, que traziam alguma influência dos Quadrinhos e da Arte Pop – imagem e texto. Em 1974, pintei um último quadro que, como outros dos últimos 6 anos, trazia palavras integradas à pintura e concebi e publiquei meu 1º livro de poemas + ou – concretos: Jogos e fazimentos (53 exemplares em reprografia – uma máquina da 3M – com encadernação caseira). Daí, com essa motivação, conheci pessoalmente os irmãos Figueiredo (Luiz Antônio, Carlos e José Luiz), Augusto de Campos, Décio Pignatari, Edgard Braga, Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo, José Lino Grünewald e, bem mais tarde, Pedro Xisto de Carvalho. Muito mais tarde, vim a conhecer o poeta experimental português E. M. de Melo e Castro, que reside atualmente em São Paulo. Artéria acontecerá em 1975, mas começou a ser pensada em 1974. As ideias, para mim, surgem isoladas ou em série e procuro registrá-las imediatamente – as ideias vão e vêm, mas nunca retornam do mesmo modo, daí a necessidade de um primeiro registro que, quase sempre, depois destruo. Às vezes, um trabalho é feito por sugestão de alguém: vejo-me forçado a ter ideias e elas surgem (é claro que a partir do repertório que possuo). Já fiz poemas por solicitação de amigos. O meu livro de peças porno-eróticas Poemas: sob a égide de Eros brotou, saiu aos jorros, como numa ejaculação de jovem. Às vezes, trabalho a partir de uma ideia registrada há mais de 3 ou de 30 anos!



 2) A docência é a atividade profissional que exerce desde os anos 70. Como enxerga esse processo político que estamos passando e de que forma trabalhar o poder da educação no intuito de conscientizar a população para enfim uma possível emancipação do ser? 

A aula é um espaço de conscientização, nem sempre com plena consciência de quem a ministra, e o trabalho não é fácil para o professor, que precisa adequar o repertório para que seja inteligível a sua mensagem, e deve dosar para não sufocar o alunado com excesso de realidade palpável, principalmente crianças e adolescentes (com quem trabalhei 25 anos, quase-sempre na escola pública). Deve, portanto, ser a escola, a sala-de-aula, um espaço de liberdade. Nem diria “emancipação do ser”, mas um aprendizado de crítica e reivindicação. Todos sabemos que somente por meio da Educação a população brasileira (ou de qualquer outro país) poderá dar grandes passos, e a sociedade, portanto, ser aperfeiçoada (a elevação do repertório geral da população resulta em atitudes críticas e reivindicatórias). O magistério, para mim, não foi um encargo, mas uma opção e trabalhei sempre com muito gosto. Os sucessivos governos parecem não ter compreendido – por meio de medidas eficazes – o papel fundamental da Educação. Deixei o Ensino Fundamental e o Médio, depois de muita luta inglória: chegamos a ter 18 greves em 20 anos! Sempre acreditei no meu papel de professor e, mesmo já tendo um repertório alto e amplo, com relação às Artes, continuei com o Ensino de 1º Grau, que é como era chamado o Ensino Fundamental. Daí que meus amigos me respeitavam, mas palpitavam: Samira Chalhub, professora universitária e psicanalista, disseme que eu teria de objetivar melhor a minha vida, enveredando pelo Ensino Superior, e me deu muita força para isto; Décio Pignatari chamou a mim e a outros poucos amigos professores de “Seus aristocratas de subúrbio!”, pois, já deveríamos estar cursando uma PósGraduação. Fui para a Pós em Comunicação e Semiótica, na PUC-SP, fiz Mestrado e Doutorado e, como aluno, foi aquela a melhor época de minha vida. O Brasil estará melhor quando a totalidade (ou quase) da população adulta tiver, pelo menos, o Ensino Médio completo. É sempre possível passar boas coisas aos alunos, contribuir para seu aperfeiçoamento enquanto indivíduos e enquanto seres atuantes numa sociedade.

 3) Você é cofundador da Nomuque Edições, que existe desde 1974, e coeditor da revista ARTÉRIA (http://www.nomuque.net ). Nos fale sobre esses trabalhos, qual intuito e como se dá a divulgação. 

A Nomuque Edições nasceu em Pirajuí, no ano de 1974 (formado e desempregado, voltei à casa da mãe e fui trabalhar como balconista na loja de meus irmãos, aí permanecendo por quase 2 anos), a partir de conversas que tive com Paulo Miranda, que residia em São Paulo, mas que ia muito a Pirajuí, em função da família. O propósito era publicar primeiramente coisas nossas – meu primeiro livro Jogos e fazimentos já estava quase pronto e havia, também, outros projetos. Ter a própria editora evitava o vexame de procurar editor. No mesmo ano, veio a ideia de Artéria, que ficaria pronta (o número 1), em julho de 1975, possibilitada pela participação dos irmãos Figueiredo, da vizinha cidade de Presidente Alves (Luiz Antônio, Carlos e José Luiz). Em Artéria 1, já estavam presentes os irmãos Campos e Décio Pignatari (este, havia sido professor de Luiz Antônio de Figueiredo, anos 1960, na Faculdade de Letras, em Marília. Luiz conhecia, também, Augusto e Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo). A ideia de uma publicação coletiva sempre nos fascinou: daí, Artéria que, com suas idas e vindas, permanece viva até os dias de hoje. A distribuição de edições é trabalho difícil se não se conta com uma empresa distribuidora. É aí que entra o boca-a-boca, o de-mão-em-mão, consignação em livrarias, correio etc. Via de regra, não há retorno financeiro satisfatório nesse tipo de publicação e os maiores encargos acabam ficando sob a responsabilidade de 2 ou 3 dos envolvidos na coisa (se tanto). Mas, a satisfação em fazer é o que vale. Revistas experimentais começaram a brotar - em 1974: Código, Polem, Navilouca e 1975: Artéria, Poesia em Greve… A Nomuque nunca pôde contar com patrocínios e publicou pouco, mas coisas mais-que-interessantes, e persiste. 



4) 14 de Maio a 17 de Julho (2016) na Caixa Cultural SP aconteceu a exposição em comemoração aos 40 anos da revista Artéria. "Mais de 60 trabalhos, entre serigrafias, objetos, vídeos e outras plataformas." Você e o poeta Paulo Miranda, foram os curadores da mostra. Nos dê um retrato visual dessa exposição. 

Poderia até enviar-lhe fotos da mostra. Sim, eu e Paulo Miranda fomos os curadores, porque éramos (somos) os editores de Artéria. Porém, o projeto de exposição foi elaborado pelo pessoal do Espaço Líquido: Bruna Callegari e Rafael Buosi foram os responsáveis pela organização e pela montagem da Exposição ARTÉRIA 40 ANOS. Antes de São Paulo, a mostra aconteceu na Caixa Cultural do Rio de Janeiro (out-nov. 2015). Houve catálogos, sendo o de São Paulo o mais completo (deve estar em pdf, na Rede). Muitos poemas foram ampliados e outros expostos em sua versão original. Artéria teve 2 números totalmente feitos em serigrafia, pela equipe (não-remunerada) da Nomuque Edições: 5 e 6 e, antes, em Zero à Esquerda, os trabalhos serigráficos predominaram (acabamos por nos tornar, também, gráficos na prática, aprendendo serigrafia etc).

 5) Em 2013 você ministrou a palestra "Poesia e Visualidade: Uma aproximação". Nela pretendia expor as relações entre poesia e visualidade por meio de análise de 30 importantes poemas visuais, abrangendo desde Oswald de Andrade a Villari Hermmann. Como foi a escolha desses poetas e como trabalhar com imagem em tempos cada vez mais reacionários e segregadores? 

Acho que os tempos são agora menos reacionários e segregadores que há 50 ou 60 anos, só que os reacionários, que são minoria (os conservadores são maioria), conseguem falar alto e são truculentos e, se encontrarem terreno propício, proliferam. A segregação já foi pior, mas a sociedade ainda tem muito o que aprender. O chocante acontece quando assistimos a atitudes moralistas numa época em que imaginávamos que tal moralismo estivesse morto e enterrado. A sessão que cassou a Presidente do Brasil, foi de uma desfaçatez cósmica, uma vergonha para o País - as declarações, em 95%, foram vexaminosas. Assistimos, hoje, a atitudes reacionárias ligadas a moralismos que não deveriam ter mais voz nem vez em nossa sociedade. É preciso combater esse tipo de atitude, principalmente nós, artistas. Os critérios de escolha dos poetas/poemas que ilustraram minha fala, naquela ocasião, foram o rigor e o uso substantivo da visualidade em poemas: tanto a visualidade ela-mesma (gráfica, cromática), como aquela evocada pelas palavras (a Fanopeia, como a apresentou teórica e praticamente Ezra Pound). Os poemas constantes de minha exposição oral privilegiavam a invenção.

 6) Allen Ginsberg dizia que "o futuro é a ditadura do rosto humano". Vivemos num constante processo de mecanização do individuo em detrimento a coletividade. A sociedade, massificada e atrelada ao medo, sofre a alienação desde a base e o ensino é sabotado justamente para facilitar esse "domínio do pensamento". Ainda assim continuar acreditando na poesia? 

A Humanidade não tem conserto, mas sobreviverá – daí o nosso esforço para ao menos melhorá-la. Toda projeção para o futuro equivalerá a um “erro na mosca” (Paulo Miranda). A Arte não salva o Mundo mas pode auxiliar na educação de sensibilidades, pode melhorar as pessoas. Filosofia alguma pode vir a significar a redenção dos Humanos – de gregos a alemães - mas da mesma forma que a Arte, pode tornar (ou não) as pessoas melhores, a partir de um exercício pensamental complexo e profundo. Apesar das coisas a que assistimos, ainda temos (nós: eu e você, Diego) recursos materiais e de pensamento que nos instrumentalizam para que exerçamos a crítica da situação. No Brasil, os problemas se eternizam: o País dá três passos para a frente e dois para trás! Décio Pignatari, com quem tive o prazer e o privilégio de conviver por mais de 30 anos (nos anos 70 e 80 eram muito comuns os encontros com os poetas concretos históricos em bares, na PUC, em eventos culturais, em casas de pessoas, como a de Samira Chalhub. A casa de Augusto de Campos esteve sempre aberta aos jovens poetas e artistas em geral), era muito otimista com relação ao futuro do Brasil, porém, nos últimos anos, o seu otimismo já havia arrefecido. Décio morreu em dezembro de 2012, estando há cerca de 2 anos com a memória comprometida – faz muita falta, com suas tiradas geniais e seus paradoxos e acertos. A Arte (qualquer que seja a modalidade em que ela se corporifique) é uma necessidade dos Humanos, responde a uma necessidade de caráter psíquico. O mundo poderá estar desabando, a Arte se manifestará nas brechas. Sempre haverá lugar e tempo para a Poesia. A Esperança da Humanidade não conduz à Paz e à Concórdia, mas à Sobrevivência, com todas asa suas mazelas. 

7) O que anda lendo ultimamente? 

Ultimamente, tenho lido pouco as coisas novas, pois as obrigações profissionais e outras têm me tomado muito tempo (embora já pudesse tê-lo feito, ainda não me aposentei). Tenho mais relido coisas por necessidades profissionais ou por puro prazer. O alunado coloca questões e isto me motiva a reler, mais do que ler pela primeira vez. Leio mais teorias da arte e poesia em geral. Alunos, às vezes, citam obras que ainda não li, procuro fazê-lo sem perda de tempo. Por outro lado, a solicitação para Bancas de TCC, Mestrado e Doutorado consomem muito do meu tempo com leituras, que nem sempre são as que eu gostaria de fazer. Biografias têm-me atraído: tanto as escritas há tempos como as que estão saindo agora. 

8) Você é Descendente de libanês. Khouri significa "sacerdote"/"padre" em árabe, tendo origem na palavra latina "cura". De que forma essa cultura oriental influencia sua produção artística e como vê a questão da Palestina? 

O nosso Khouri é assim pela transliteração francesa, pois há Cury etc, que é o mesmo nome de família e significa, mesmo, “padre” – acho que nada tem a ver com o Latim (cura). O “kh” dá conta da aspiração, que há em árabe. Meu pai era libanês (do Sul) e minha mãe, filha de libaneses, mas já nascida em Pirajuí. Eu e meus irmãos não temos o “El”, mas outros da família têm. Meus pais não quiseram ensinar a língua árabe para os filhos, talvez para que houvesse uma melhor integração nossa na sociedade que, em Pirajuí, era bastante diversificada, com pessoas de todas as partes do Mundo (um erro da parte deles, que utilizavam o Árabe como língua secreta que, quando ouvíamos, ficávamos pescando uma ou outra palavra que conhecíamos: ‘criança’, ‘dinheiro’, ‘vou sair’, ‘não fale isso diante dos meninos’, ‘olhe’ etc. Palavrões eram impensáveis em minha casa, mas esses, aprendemos do árabe, rapidamente). O domínio do Árabe teria aberto todo um universo para nós: literatura, ciência etc. Mesmo assim, cheguei a aprender alguma coisa, por curiosidade e, às vezes, por necessidade. Aprendi desde cedo a ter orgulho de minhas origens árabes, sem esquecer a parte fenícia, que os libaneses reivindicam, e com razão. Comidas árabes compareciam com frequência em nossa mesa – minha avó e minha mãe cozinhavam divinamente (minha avó sabia tudo dessa culinária) e eu mesmo aprendi a fazer muitas daquelas comidas – a culinária árabe-libanesa é uma das melhores do Planeta. Em minha atividade artística, acho que o fato de descender de libaneses pouco ou nada me influenciou. Na casa de meus avós maternos (os paternos nunca vieram para o Brasil) não havia lugar para a Arte, tanto que os talentos para o canto (dois dos irmãos de minha mãe tinham vozes poderosas e ela mesma, quando cantava, era afinadíssima e somente o fazia se estivesse triste), naquela casa, foram podados desde cedo. Ouvíamos, além das canções populares brasileiras e de fora (também música erudita), muita música árabe. Amei a Arte desde cedo, mas era fora de casa que absorvia o repertório e que tinha com quem conversar, apesar dos refinamentos de meu pai. O Oriente Médio é de uma complexidade estonteante – o sofrimento de nossos primos é de se lastimar e parece que o deus Ares deitou suas raízes por lá (o Líbano sofreu muito com guerras, em muitas épocas – perdemos muitos membros da família por isto e esta foi a causa de meu avó materno, Rachid Cury, ter vindo ao Brasil, praticamente obrigado pela mãe, temerosa de perder o último filho homem sobrevivente). Os próprios árabes não se entendem: a Arábia Saudita, por exemplo, deixou que os EUA destruíssem o Iraque e todos deixam que a incompetente Rússia de Putin financie o aniquilamento da Síria. Veja: o Líbano teve de passar por uma reconstrução recentemente. Os palestinos, não fora o desastre sírio, seriam dos povos mais sofridos do Mundo nas últimas décadas e deverão ter o seu território como país autônomo… deverá haver concessões tanto de árabes como de israelenses (um fenômeno interessante que se observa: a população árabe-muçulmana, em Israel, cresce numa velocidade bem maior que a de judeus, propriamente, daí a chamada de judeus do mundo inteiro para o país). Esses descendentes de Abraão, não se bicam, não é mesmo? Assim como árabes cristãos e muçulmanos. Os Humanos são muito complicados. Agora, quanto aos refugiados, acho que o Brasil deva recebê-los de braços abertos.

 9) Uma imprudência. 

De minha parte? O uso da ironia, mesmo sutil, com pessoas com repertório muito diferente do meu e que não bem me conheciam, a ponto da coisa gerar incompreensão e até atrito. Ou mesmo, passar informações de grande complexidade para um público sem, ainda, a suficiente maturidade intelectual – isto gerou confusão e desapontamento de minha parte. Professor tem de diluir informações complexas (proceder a uma adequação de repertório) para que se tornem inteligíveis – à complexidade, dá-se tempo. 

10) Pra finalizar fale o que quiser. Deixa seu recado. 

Dada a minha idade, já avançada (nasci em junho de 1948) e minha persistência na Arte, darei um conselho (como sempre, de graça): Se tiver um projeto, uma ideia, lute pela sua realização, mesmo que apesar de, não espere as (supostas) condições ideais, pois, quando estas vierem, seus interesses serão outros, o ímpeto arrefeceu, você nada realizará. Execute seus projetos, concretize suas ideias, mesmo que apesar de. Salem! 

São Paulo 7, 8 e 9 de outubro de 2017


terça-feira, 21 de novembro de 2017

AS CORES DA ARTISTA VISUAL MARIA DO CARMO

Por: Diego El Khouri

Conheci a artista visual Maria do Carmo nas minhas andanças pela  cidade de Goiânia (GO). 
Ela é membro da AGAV (Associação Goiana de Artes Visuais) e tenho a honra de apresentar nesse blog esse bate papo cultural  com essa autêntica artista.



1) o que te motivou a começar a pintar, influências e o que mudou de lá pra cá?

 Eu procurei várias telas para comprar para minha casa e não identificava com nenhuma pintura. Assim resolvi eu mesma produzir essas telas, pois elas estavam na minha cabeça e eu não encontrava nada parecido. As pessoas iam me visitar e gostavam das telas querendo comprá-las, com tanta insistência resolvi vendê-las. E logo em seguida estava vendendo para as galerias de arte de Goiânia, Brasília e Campo Grande.
No início estudei e utilizei em meu trabalho, a técnica de óleo sobre tela, mais tarde, também a aplicação de outros materiais como: textura, folha de ouro, sacos e linhagem, cascas de bananeira e reaproveitamento de pedaços de madeira que submetia a tratamento especial. Pintava figurativo e abstrato, aos poucos fui abandonando o figurativo e hoje todo o meu trabalho está voltado para o abstrato. Tenho procurado preservar a simplicidade e o prazer lúdico que eu cultivava em minhas primeiras telas. Atualmente não utilizo apenas  tinta a óleo, trabalho com a acrílica e a mistura das duas também, sem a preocupação do resultado. Mas procuro transformar um material frio em uma obra harmoniosa e ao mesmo tempo de apaixonante beleza

2) Qual a importância que as artes plásticas tem em sua vida?


É um ato de liberdade, porque a minha arte é sem compromisso com o real ou forma. É a ausência de pensamento, de direção ou estilo. Pinto exclusivamente pra mim, para satisfazer o meu eu, em cores e texturas. Se outras pessoas se identificarem ótimo (porque assim realizo uma venda), mas se não gostarem tudo bem, porque ela não foi idealizada pra isso, mas para ser sentida, tocada e até mesmo levar a pessoa ao encontro com ela mesma. Esse encontro que me refiro são de energias, se a pessoa olhar e de alguma forma tocar o seu íntimo pra mim ela cumpriu a sua função. A arte não pode passar despercebida, e isso eu sei que não vai acontecer com todos as pessoas que vão apreciá-las. Mas que faça o bem e de alguma forma possa trazer energias boas para o expectador.  


3) Fale sobre o projeto Poesia pintada para criança.

O projeto Poesia pintada é uma oficina que será ministrada para os educandos da Secretaria Municipal de Educação  que propiciará a criança a desenvolver o gosto pela poesia através das oficinas que irá trabalhar a criação espontânea dessa poesia e representação com a pintura. Levar a criança ter o contato com a literatura e desenvolver paralelamente a pintura. Esse trabalho irá despertar  seu potencial para as artes e ao mesmo tempo proporcionar uma nova leitura de vida levando a criança não só o ato de apreciar a arte de uma maneira global, mas também de soltar as suas habilidades nas artes como literatura e artes plásticas. Apresentar poesias e pinturas para que tenham um conhecimento prévio e desenvolver a arte nata descobrindo talentos tanto para a poesia como para a pintura de sua criação própria e não releitura ou cópias das obras já existentes. Estimulando a criatividade e respeitando cada estilo e diferenciações na exposição dos trabalhos elaborados. No final das oficinas será confeccionado um  livro de tecido, com imagens pintadas a mão e poemadas, com o intuito de que ele possa manusear o livro de pano num toque macio e aconchegante de forma familiar e afetiva.


4) E o projeto Eu sou assim, para  adultos, aqueles que pararam de estudar?

O projeto Eu sou assim... destina-se as pessoas que estudam a noite no programa EAJA e que de alguma maneira ficaram excluídos da educação regular e que em muitos casos apresentam baixa estima e sem estímulo para começar ou recomeçar os estudos. É uma maneira deles sentirem que as oportunidades ainda estão a sua frente, precisando de um incentivo para que possam continuar os estudos sem que o abandonem novamente.  É um reconhecimento das suas dificuldades, mas também dos seus pontos positivos, nos quais todos nós nos encaixamos nesse contexto.
 Nesse projeto o educando lida com seus limites, suas deficiências físicas e psicológicas, que ele possa sentir que ainda tem chance para ele não só a nível pessoal como profissional, ou mesmo apenas para sua realização pessoal. O primeiro passo será a sua observação diante do desconhecido e a sua percepção de um assunto que não faz parte do seu cotidiano, mas que esse trabalho levará através da sensibilidade atingir ele mesmo, exteriorizando por médio da pintura a sua própria leitura.

5) De que forma você enxerga a cena cultural de Goiânia nos dias atuais?

Nesse momento considero que Goiânia teve um avanço e mais abertura no campo das artes em todos os sentidos. Houve um  incentivo da Cultura por parte das leis municipais e estaduais e também por uma mudança de comportamento da sociedade que tem participado mais dos eventos artísticos e exposições. Esta apreciação é acessível para qualquer nível social, pois você tem acesso as galerias e as oficinas ministradas pelos expositores. 


6) Você é membro da AGAV (Associação Goiana de Artes Visuais). Nos fale dessa associação e qual papel desempenha no estado de Goiás.

Faço parte da AGAV Associação Goiana das Artes Visuais, que é uma associação cultural de direito privado que engloba artistas da pintura, desenho, gravura, fotografia e escultura. A AGAV tem uma participação ativa também juntamente com a Secretaria Municipal da Cultura desenvolvendo em parceria com vários projetos para a comunidade.  É uma associação precursora dentro das artes e  que outras associações e pessoas podem  desenvolver novos projetos nesse campo com o intuito de  beneficiar as pessoas do nosso estado.

Essa associação tem como presidente Nonatto Coelho que é um artista renomado e conceituado em Goiás. Tem como objetivo divulgar a arte, promovendo o crescimento pessoal e a valorização do artista.  Além do mais defende os direitos dos artistas junto às autoridades  e estimula os governantes a implementarem  mais projetos culturais. Esses projetos culturais são destinados a levar a arte para a sociedade como o que está acontecendo agora o Arte nos Parques, com material gratuito e oficineiros ministrando aulas em 5 parques de Goiânia com a participação de pessoas acima de 10 anos. 


7) Livro de cabeceira.

Evangelho Segundo o Espiritismo e obras de estudo pelo espírito  de André Luiz

8) O que anda lendo ultimamente?

O último foi A Mulher do Oficial Nazista de Edith Hahn Beer e Susan Dworkin coautora e na linha espírita o livro Sob as Cinzas do Tempo de Carlos A. Bacelli / Inácio Ferreira.

9) Uma frase 

“O amor é uma força que transforma o destino”. Chico Xavier

10) Próximos passos.

 Estão aprovados esses dois projetos Eu sou assim e Poesia pintada que serão executados nas escolas Municipais de Goiânia nesses próximos 180 dias e uma exposição individual,  Harmonia em Cores que será realizada aqui em Goiânia e Inhumas. Ainda não tem definição do local e a data da exposição.



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

THINA CURTIS, A SENHORITA ZINE

Por: Diego El Khouri

Tive o primeiro contato com o trabalho da Thina Curtis por volta de 2009 através do seu zine Spell Work. Em 2011 tive a oportunidade de entrevistá-la em  e tal material se encontra nesse link http://fetozine.blogspot.com.br/2011/08/thina-curtis-e-sua-arte.html. Abaixo mais um bate papo com essa grande figura do underground brasileiro:


1) Você começou com a Fanzinada em 2011. Evento que celebra o fanzine e que viajou para vários lugares do Brasil. O que mudou de lá pra cá? Quais as diferenças mais visíveis na produção de cultura alternativa no país?

As pessoas voltaram a olhar para os Fanzines, outras a conhecerem e a produzir.Com certeza a qualidade e a estética visual. x
Hoje temos muitas feiras, eventos direcionados a zines e publicações independentes, Livros sobre Fanzines.

2) Você promoveu oficinas de fanzine na Febem e em presídio feminino em São Paulo. Nos conte essa experiência e qual a força da cultura alternativa na reintegração do presidiário à sociedade?
Uma experiência bem marcante e de transformação na minha vida.

O preconceito das pessoas em relação a mim por estar nesse tipo de instituição também fica associado a uma pessoa marginalizada e literalmente subversiva, ou seja, que tipo de professora e mulher é essa que vai dar aulas para bandidos. Trabalhei com meninos e meninas, mulheres. porém, ter trabalhado com jovens grávidas e com bebês foi algo que mudou e tocou algo dentro de mim.Só tendo esse tipo de experiência você nota o quanto nossa sociedade e injusta, preconceituosa, machista, racista e homofóbica.Através dos Fanzines essas crianças-mães tiveram seu primeiro contato de afeto, direitos, cidadania, empoderamento.
Por meio de simples recortes e diálogos entenderam um pouco mais sobre-viver a vida, e que existe possibilidades fora do crime e drogas.Com uma linguagem de fácil entendimento que não intimida o autor eles tiveram também o primeiro contato com arte, cultura e principalmente aprenderam a gostar de ler. Viram-se pela primeira vez capazes de pensar, se sentiram gente.


3) Você diz que acredita em "arte engajada, na arte militante, na arte sentida, na arte vivida". Pra uns arte liberta, pra outros aprisiona. Vivemos em um momento de propagandas declaradas contra os artistas e qualquer pensamento libertador. O que fazer no meio de todo esse caos?

A arte em si e uma provocação de sentimentos, eu faço parte de uma geração marcada pelas lutas e engajamento ideológico vividos na ditadura, venho de uma época que discos era proibidos por conter conteúdo improprio, ou seja, falar das condições politicas de um pais em ditadura, hoje todos falam o que querem abertamente, mais ninguém se escuta e se respeita, as pessoas reproduzem o que escutam e textos que nem leem ou entendem, em nome da moral e bons costumes, como será que Shakespeare foi visto quando naquela época fez seus textos anárquicos, Dostoiévski, Michelangelo, Caravaggio, ou um quadro clássico como o Nascimento de Vênus entre tantos outros pintores, sem falar dos poetas, músicos, escultores e outras formas de arte.

4) Como anda as mulheres na fomentação e produção de cultura alternativa? Quais nomes poderia indicar?
As mulheres como sempre estão fazendo tudo ao mesmo tempo, na cultura independente mais ainda! São tantas, Ana Paula Francotti, Aline Ebert, Julia Leonel, Ca Clandestina, Simone Siss, Amanda Doria, Titi Carnelos, Bethania Mariano, Jessica Balbino,Ligia Regina Lima,Ivone Landim,entre milhares de outras...

5) Poesia.

Alice Ruiz(sempre),Jurema Barreto, Dalila Teles, Rosana Banharoli, Janaina Moitinho

6) HQ.
Fabi Menassi, Aline Daka, Germana Viana
7) Música.
Ratas Rabiosas, Corujas de Gothan, Odisseia das Flores, Camila Fernandes (Wonder Dark)
8) Epitáfio.
A arte para mim e abrigo, apoio, vida e esperança.
9) Você, como arte educadora, com que olhos observa o momento atual que o Brasil está passando e de que forma influência nossa relação com as artes?
Creio que respondi um pouco dessa questão na terceira pergunta, porém nesse momento de crises atrás de crises, da arte ensinada nas escolas públicas não ser considerada uma disciplina, somente uma diversão é algo que somente é vista em supostas datas comemorativas para decorar escolas e salas, sabemos que a arte vai muito além disso, a arte é uma síntese dessas ambiguidades, a arte permite mergulhar em reflexões sobre a condição humana, olhar ao entorno e o que a sociedade impõe.

A arte ela tem que Fluir, Fruir!

10)Por que ainda produzir, estudar e falar sobre Fanzines?
Fazer Fanzine não necessita de regras de estruturação para se fazer compreender e isso é mágico!
Qualquer pessoa pode produzir um Fanzine.
Temos muito ainda que se discutir e comentar, temos muito ainda para apropriar quando o assunto e fanzine.
"O pai das redes sociais” ainda tem um elemento diferenciado, a criatividade, o desejo de se fazer algo por experimentação sem seguir padrões, estéticas e justamente isso que fazem dos fanzines únicos.
Fanzines são essência.
Esse artefato simples que contem um cunho forte na educação, na arte e no conhecimento ainda tem muito a ser pesquisado e falado.
Pra mim é necessidade, faz parte de mim.
Quando estou produzindo um zine novo tenho a mesma sensação da criança descobrindo o mundo, e toda vez isso é uma descoberta, a gente nunca sabe onde vai parar um zine, sei que sempre tenho retornos deles de lugares e pessoas inimagináveis.